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Full text of "Barcelona 1929"

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EXPOSIÇÕES 


UNIVERSAIS 


BARCELONA 1929 

Cristina Ferreira cie Almeida 


Texto 

Cristina Ferreira de Almeida 


Revisão cie Texto 
Fernando Milheiro 

Design Gráfico 
Luis Cliimeno Garrido 

Coordenação de Edição 

Fernando Luís Sampaio 

Coordenação de Produção 

Diogo Santos 

Fotocoinposição, Selecção de cor e Fotolitos 

Facsimile, Lda. 

Impressão 

Seleprinter, Sociedade Gráfica, Lda. 

Créditos Fotográficos 

Arxiu Fotogràfic/Arxiu Historie de la ciutat de Barcelona. 
Fotos de Caries Rodès. 

As fotografias da página 45 foram cedidas pela Fundação 
Mies van der Rohe, a quem agradecemos na pessoa 
do seu director, Lluis Hortet. Fotos de Pau Maynès ©. 

Depósito Legal 
92794/95 

ISBN 972-8127-21-9 
Tiragem 

2 000 exemplares 
Lisboa, Outubro de 1995 


Uma Edição 



EXPOQ8 



_I> As contradições de uma época. 7 

1929 em Wall Stret. 9 

0 imparável progresso. 10 

Tendências do modernismo. 14 

Barcelona no interlúdio monárquico. 16 

A cidade da exposição. 25 

II A Preparação da festa. 35 

As opções portuguesas. 44 

Solenidades dos primeiros dias. 56 

Um roteiro seleccionado. 70 


BIBLIOGRAFIA 


84 




































AS CONTRADIÇÕES 
DE UMA ÉPOCA 

H primeira exposição internacional de Barcelona realizon-se em 
1888. Vinte anos depois começou a ser planeada a segunda, des¬ 
tinada a ter por tema a indústria eléctrica. Não fosse a Primeira 
Guerra Mundial e a segunda exposição universal da cidade teria pos¬ 
sivelmente acontecido logo no início do século XX. Assim, acabou 
por ser relegada para 1929. No espaço que medeia o planeamento e 
a concretização da exposição as mudanças internas em Espanha 
foram velozes. Os anos de 1929 e de 1930 são de charneira entre 
diferentes modelos de sociedade. A Espanha desta época está per¬ 
corrida de convulsões internas. Na Exposição Internacional de 
Barcelona, o Estado procura dar de si mesmo uma imagem de força e 
estabilidade. Atributos já bastante fragilizados aquando da inaugura¬ 
ção da exposição. À distância, as aspirações políticas e sociais que 
guiaram a construção da mostra assumem traços grossos, quase 
caricaturais. Mas que não devem esbater o que a exposição também 
teve de esforço ingénuo e espontâneo. Feito mais a pensar num 
momento preciso do que no que dele ficaria para o futuro. 
Respondendo a aspirações profundas e a convicções enraizadas. 

De grande impacto mediático, a Exposição Internacional de 
Barcelona de 1929 é peculiar, tanto pelo momento político em que 
foi realizada como pela ligação que representou entre a Catalunha, 
tradicionalmente rebelde, e o poder central de Madrid. Na história 
de Barcelona, o período temporal entre as duas exposições é de forte 
crescimento económico, por um lado, e de grandes revoltas por outro. 
O expoente da revolta foi o ano de 1909, que ficará na história da 
Catalunha marcado pela chamada “Semana Trágica”, durante a qual 
a maior parte das igrejas e dos edifícios do Estado foi destruída. 

Foi de Barcelona que, em 1923, saiu o ditador Primo de Ri vera para 
tomar o poder em Madrid. A exposição, que o general queria como 
prova de força e recuperação da sua imagem pessoal, acabaria por 
ficar associada ao canto do cisne do chefe do governo, obrigado a 
demitir-se meses antes das portas dos pavilhões se fecharem. 

A época que se seguiu à Primeira Guerra Mundial registou grandes 
avanços no campo da ciência e da técnica. A confiança no progresso 
era nessa altura ilimitada. A indústria florescia. Na região de 
Barcelona, anteriormente já muito industrializada, emergia uma 
classe de forte poder económico, mas sofrendo uma atrofia herdada 



7 




de relações tortuosas com o poder central. De facto, este sempre se 
aproximara de Barcelona mais para a conter do que para proteger. 

A realização de uma exposição internacional nesta data funcionou 
para esta burguesia como um canto da sereia: impedida historica¬ 
mente de aspirar a tomar o rumo do interior, projectava agora 
lançar-se nos mercados internacionais. 

No meio da euforia e da projecção que Barcelona atingiu durante a 
exposição, o crash da Bolsa nova-iorquina caiu como um balde de 
água fria. A grande recessão que se abateria sobre os Estados Unidos 
teria mais tarde consequências muito gravosas para a Europa. No 
curto prazo, teve o efeito de dar razão a um receio ancestral comum 
às sociedades fechadas: o de que a marcha acelerada do progresso e 
da economia, afinal, sempre conduzia ao inferno. 

Em termos políticos, o derrube de Primo de Rivera não significou 
uma opção de regime. Aliás, as ditaduras, apoiadas no delírio na¬ 
cionalista, eram na época um seguro contra as incertezas do futuro. 
Em Portugal, no ano da exposição, Salazar já desde há um ano 
estava instalado na cadeira do poder, da qual só viria a cair em 
1968. Na Itália, Mussolini já reinava em fascismo desde 1922 e se 
o Terceiro Reich só seria proclamado quatro anos depois da exposi¬ 
ção fechar as suas portas e o regime autoritário de Dollfuss só 
tomaria conta da Áustria dois anos depois do fecho da exposição, 
imperavam já os regimes autoritários de Pilsudski na Polónia desde 
1926, de Kemal na Turquia desde 1923 e de Nagybanya na 
Hungria desde 1920. 

Em termos culturais e científicos, os anos 20 viviam a febre dos 
movimentos modernistas, que chegaram a todas as áreas do saber e 
do fazer em definitiva ruptura com o que o século XIX produzira. 
Mas, apesar de conter um núcleo de arte moderna, a filosofia geral 
da Exposição de 1929 contrariava e optava, à excepção de algumas 
ilhas, por um conservadorismo exaltante a que, a nível arquitectóni- 
co, se chamou novecentismo. 

Todas as contradições da década — neste ano a Espanha atingira o 
ponto máximo de afastamento dos consensos — tiveram na Exposição 
Internacional de Barcelona o seu postal ilustrado. Os frágeis laços 
que uniram a vertigem da técnica a modos de vida medieval, o 
conflito entre o liberalismo e a necessidade de um Estado protector e 
planeador, o grande crescimento económico e a multidão de novos 
miseráveis desenraizados do campo, tudo parece agora surgir clara¬ 
mente nesta exposição, pensada para exaltar as realizações e a força 
de um país afinal dividido. 


8 



1929 EM WALL STREET 


01 ano de 1929 ficará na história do Ocidente como o ano do grande 
abalo no capitalismo. 0 crash da Bolsa de Nova Iorque, com 
repercussões gravíssimas e indeléveis na sociedade americana - a 
Grande Depressão - e também na Europa, tem causas específicas 
que são apontadas pelos analistas e que genericamente desembocam 
na ideia de que o que correu mal deveu-se, não a uma perversão 
intrínseca ao modelo capitalista, mas sim a uma série de perversões 
adjacentes que foram envenenando a pureza do modelo. 

0 mercado das acções americano vivera um período próspero duran¬ 
te os anos 20, com uma íínica excepção na especulação fundiária na 
Florida. Esse episódio, no entanto, não chegou para assustar os 
investidores e em meados da década as oscilações nas cotações de 
Wall Street iam interessando a um público cada vez mais numeroso, 
ansioso pelo rápido enriquecimento. As subidas das cotações na 
Bolsa de Wall Street eram seguidas com a emoção que despertavam 
as finais de basebol. 

0 aumento constante e vertiginoso dos valores das acções fixou-se a 
partir de 1927 e teve como impulsionador a General Motors. Os prin¬ 
cipais protagonistas da euforia que se desencadeou giram em torno 
desta empresa: John J. Raskob, um dos directores da G.M. a quem se 
devem as declarações mais optimistas sobre o aumento de cotações 
esperado para a G.M.; William Crapo Durant, que fora afastado da 
G.M. em 1920 e conseguira enriquecer graças à especulação bolsis¬ 
ta; irmãos Fisher, cuja fortuna derivava da venda das suas fábricas, 
eram também discípulos da G.M.; o canadiano Arthur C. Cutten, que 
enriqueceu graças aos cereais. Estes homens formavam o núcleo 
duro impulsionador da dinâmica de Wall Street em 1927. 

Em 12 de Junho de 1928 foram transaccionados mais de cinco 
milhões de acções na Bolsa de Nova Iorque, o que constituiu a ultra¬ 
passagem de uma marca mítica. Esse valor viria a ser sucessivamen¬ 
te ultrapassado no segundo semestre do ano. 

Estas “subidas ruidosas” das cotações, na expressão feliz de John 
Kenneth Galbraith, começaram a parecer preocupantes a alguns ana¬ 
listas mas estes eram encarados, no meio da euforia geral, como 
velhos do Restelo. 

São os indicadores de quebra na economia americana, como a 
quebra dos índices de produção, que lançam as sementes do descré¬ 
dito. A 24 de Outubro de 1929 treze milhões de títulos foram postos 
à venda numa manhã na Bolsa de Wall Street. Caíam assim 


9 



bruscamente as cotações, artificialmente mantidas inflacionadas pela 
especulação desde há anos. Alguns bancos conseguiram ainda 
reestabelecer bases mínimas comprando acções ao desbarato, mas 
nos dias seguintes o pessimismo vencia. 

A queda dos valores arruinou muitos especuladores. Mais do que 
isso, como a especulação operava com base no crédito, encheu-os de 
dívidas. Muitos bancos de pequena dimensão fecharam as portas e a 
falta de crédito paralisou a produção e restringiu o consumo. 
Rapidamente, a Europa foi arrastada pela crise, já que desde a guerra 
eram os capitais americanos a sua principal fonte de financiamento. 
Além do desastre económico que representou, o crash da Bolsa de 
Nova Iorque teria repercussões na Europa ao nível de uma imagem 
de progresso e de capitalismo florescente. A América, até aí, apare¬ 
cia como o arquétipo de uma sociedade pujante, com uma economia 
vibrante. A Europa recuperava ainda o fôlego perdido durante o pri¬ 
meiro conflito mundial. À industrialização com base nas possibilida¬ 
des abertas pela utilização de energia eléctrica, anterior ao conflito, 
juntava-se uma série de inventos, técnicas e descobertas científicas 
que certificavam a ideia de um mundo em velocidade acelerada, de 
um progresso deslizante. Nas sociedades mais fechadas, este surgia 
também como ameaçador. Um arauto do fim dos tempos. 

Esta dualidade está bem patente na Exposição Internacional de 
Barcelona de 1929 cortada a meio, em termos temporais, pelo desai¬ 
re de Wall Street. 


0 IMPARÁVELPROGRESSO 

m Agosto de 1926, a Warner Bros projectou pela primeira vez um 
filme sonoro. A experiência foi feita no Teatro Warner de Nova 
Iorque e consistiu numa sincronização em disco chamada Vitaphone. 
0 Vitaphone foi conseguido através de técnicas estudadas e desen¬ 
volvidas pela Electrical Research Products, filial da Western 
Electric, vinculada à American Telegraph and Telephone, que 
dependia do grupo Morgan. A banda sonora é puramente musical, 
não há ainda vozes no cinema. 

No mesmo ano, dois físicos japoneses inventam a antena que terá o 
nome de um deles, Yagi, e que, pelas qualidades de recepção que 
apresenta passa a ser usada para recepção de sinais de televisão. 
Edwin Howard Armstrong propõe, em 1927, o princípio da modula¬ 
ção de frequência na transmissão de programas radiofónicos. Isto 


E 


10 





significa que se passou a variar a amplitude de frequência da onda 
portadora seguindo o ritmo da frequência da comunicação. As trans¬ 
missões em FM requerem a utilização de 150 kHz mas apresentam 
uma qualidade sonora muito maior, uma vez que são eliminadas per¬ 
turbações e ruídos secundários. 

Em 1929, a BBC de Londres inicia emissões televisivas experimen¬ 
tais. No mesmo ano, o relojoeiro norte-americano Warren Alvin 
Marrisson inventa o relógio de quartzo, que permite medir o tempo 
com grande precisão e reduzir o grau de desvio. O efeito é consegui¬ 
do utilizando cristais de quartzo, cujas oscilações são transformadas 
numa corrente de frequência constante. 

No ano anterior é comercializado e utilizado na industria um novo 
metal duro criado pela empresa Krupp de Essen e feito a partir de 
uma fusão de cromo, volfrâmio e titânio. O novo metal duro chama-se 
widia e começa por ser utilizado como serra para ferramentas de 
corte. Consegue-se assim atingir velocidades de corte inéditas. 
Também em 1928, o bioquímico Albert Szent-Gyorgi consegue, a 
partir de extractos vegetais e de glândulas adrenalínicas, uma 
substância a que chama ácido ascórbico, que mais tarde demonstra 
ser idêntico à vitamina C. Estuda também os compostos que parti¬ 
cipam na decomposição dos hidratos de carbono para dar lugar a 
dióxido de carbono e água. Estes trabalhos viriam a possibilitar a 
compreensão da totalidade do ciclo do ácido cítrico, ou de Krebs, 
uma das actividades essenciais das células dos organismos vivos. 
Szent-Gyorgi receberia em 1937 o Prémio Nobel da Medicina e da 
Fisiologia. 

Em 1927, o físico alemão Julius Lihenfeld deduz, a partir de bases 
puramente teóricas, o funcionamento do transístor de efeito de 
campo, estabelecendo assim uma base importante para o posterior 
desenvolvimento da técnica dos semicondutores e o princípio cio 
transístor. 

O electroencefalograma é inventado em 1929 pelo psiquiatra alemão 
Hans Berger e permite medir as correntes cerebrais. 

A primeira locomotiva diesel de grandes dimensões é construída na 
Alemanha em 1929 e destina-se aos Estados Unidos. 

Também na Alemanha, em 1929, é construída - pela Miele - a pri¬ 
meira máquina de lavar pratos eléctrica para uso doméstico. 

No campo da aviação, a década de 1920 assistiu a todo o tipo de 
experiências e novidades. O maior hidroavião do mundo faz o seu 
primeiro voo no dia 25 de Julho de 1929. O hidroavião chama-se 
Do X e é fabricado pela fábrica alemã Dornier. Três meses depois do 


li 




A Exposição de Barcelona quis ser a montra 
do progresso e da modernidade. 


voo ianugural, o Do X bate o recorde de transporte aéreo de pessoas, 
levando 158 passageiros e 11 tripulantes. Estas e outras inovações da 
ciência e da técnica estiveram presentes na Exposição Internacional 
de Barcelona de 1929. 

Se a ideia inicial da Exposição de Barcelona estava centrada nas 
indústrias eléctricas, os sucessivos adiamentos provocaram uma 
banalização da utilização desta energia na indústria. De tal forma que 
a ideia de modernidade subjacente à realização de exposições inter- 


12 















nacionais já não se coadunava com o projecto de ter a energia eléc¬ 
trica como leitmotiv. No entanto, esta ideia não chegou a ser substi¬ 
tuída por outra mais “moderna”. O qne aconteceu é qne o tema da 
exposição se tornou mais ambicioso e abrangente e foi aumentado o 
sen âmbito geral. Apesar disso, as indústrias eléctricas viriam a 
constituir um dos núcleos centrais da exposição e o Palácio das 
Indústrias seria um dos mais importantes edifícios do recinto. 
Curiosamente, depois do desaire da Bolsa de Nova Iorque este palᬠ
cio seria também o mais saqueado - muitos industriais necessitaram 
de reaver as importantes maquinarias que aí se expunham. 0 gover- 


13 













no espanhol e a municipalidade preocuparam-se em ocupar os espa¬ 
ços vagos com outro tipo de peças. Assim, quando em Julho de 1930 
a exposição foi finalmente encerrada, o núcleo industrial estava per¬ 
feitamente descaracterizado. Mais um sinal da época de charneira 
que se vivia. 


TENDÊNCIAS DO MODERNISMO 

H s gerações seguintes instituíram o termo modernismo para des¬ 
crever os movimentos artísticos e culturais que surgiram no início 
deste século e que se destacaram, na época, pela ruptura com o que 
vinham sendo as tradições culturais herdadas do século XIX. 

Na pintura, significava ultrapassar o impressionismo. Uma das for¬ 
mas de que nesta área se revestiu o modernismo foi o chamado pós- 
-impressionismo, simbolizado por um núcleo de pintores franceses 
ou sediados em Paris como Gauguin, Picasso dos primeiros anos, 
Cézanne e Matisse, entre outros. O pós-impressionismo teve como 
ponto alto, na altura, as exposições de 1910 e 1912 na Galeria 
Grafton de Londres. Outra forma de modernimo foi o cubismo, 
desenvolvido por Picasso e George Braque em Paris, entre 1907 e 
1914. Destacando a natureza bidimensional da pintura, o cubismo 
apresenta em simultâneo diferentes facetas do seu objecto. Nos anos 
20, o cubismo iria influenciar muitos pintores bem como escultores e 
arquitectos. O surrealismo e o dadaísmo são outras formas de que o 
modernismo se reveste. 

Na escultura, o modernismo traduziu-se basicamente na rejeição da 
longa tradição greco-romana e na procura de novas formas. 

A abertura das portas do inconsciente e do subconsciente, operada 
primeiro por Freud e depois continuada por Jung, mostrou novos 
modos de percepção da realidade. Como tal, influenciou a produção 
artística e também literária. Os seus efeitos são visíveis sobretudo na 
poesia, que se liberta de espartilhos de forma. Os conceitos de id, 
ego e superego, regressão, identificação e sublimação alteram de 
forma fundamental a percepção quotidiana do início do século. 

Um dos campos onde o modernismo deixou mais marcas foi na arqui- 
tectura. A pompa e o eclectismo deram lugar à pureza de linhas e à 
funcionalidade. A escola de Arte e Design fundada em Veimar em 
1919, Bauhaus, é um dos expoentes do modernimo na arquitectura. 
Dirigida por Walter Gropius, mudou-se para Dessau até ser encerra¬ 
da pelos nazis em 1933. O manifesto da sua fundação apelava para a 


14 





Os edifícios construídos para a Exposição reflectiam as tendências arquitectónicas 
mais arrojadas da época. 

unidade das artes criativas sob a batuta da arquitectura. Esta basea¬ 
va-se na consciência da natureza dos materiais e nas suas relações 
conceptuais, produzindo linhas geométricas e puras que influencia¬ 
ram decisivamente, não só a arquitectura, como o design industrial 
dos anos 20. 

Outra escola de arquitectura de realce no modernismo é a do suíço 
Le Corbusier — Charles-Édouard Jeanneret. Expoente do ferro con¬ 
creto, o trabalho de Le Corbusier é bastante influenciado pelo cubis¬ 
mo num sentido brutal e maciço. Devem-se-lhe as Unités 
d’Habitations de Marselha e de Chandigar, capital do Penjabe. 
Apesar da enorme influência da sua obra, alguns dos trabalhos que 
deixou ao nível de cidades planeadas revelaram-se desastrosos, tal 
como os de Shef field, em Inglaterra, e tiveram que ser demolidos. 

Em 1927, o arquitecto alemão Ludwig Mies van der Robe atinge 
grande notoriedade com desenhos para vivendas do bairro residen¬ 
cial de Weissenhof, em Estugarda. Van der Robe é um autodidacta 
que surpreende pela perspectiva tridimensional das casas que pro- 
jecta e nas quais utiliza betão armado e vidro, conseguindo um efeito 
de leveza. Mais tarde, a sua arte vai ser depurada no sentido do 
estruturalismo. Na exposição do bairro residencial de Estugarda, que 
o projectou internacionalmente, participaram os maiores arquitectos 
da época, enquadrados no modernismo: Le Corbusier, Walter 
Gropius, Peter Behrens, Hans Poelzig, Jacobus Johannes, Pieter 
Oud, Hans Scroun e Max Taut. 

Muitas das realizações do modernismo foram durante muito tempo 
rejeitadas pelos gostos da classe média da época, para quem o termo 


15 







































“arte moderna” era pejorativo. A Exposição de Barcelona, ao con¬ 
trário do que poderia esperar-se, não favoreceu as correntes moder¬ 
nistas ao nível da arquitectura. 0 único dos artistas citados que 
esteve representado foi Ludwig Mies van der Rohe, autor do pavilhão 
alemão. A Espanha da época albergava alguns dos protagonistas de 
maior alcance de diversas correntes modernistas, mas o que acabou 
por vingar na exposição foi um conservadorismo repescado. Para 
desfasamento da Exposição Internacional de Barcelona em relação 
às correntes inovadoras suas contemporâneas concorreu, sobretudo, 
a conjuntura de política interna. 


BARCELONA NO INTERLÚDIO MONÁRQUICO 

epois de tantos adiamentos da Exposição de Barcelona, a 
Espanha de 1929 acabaria por ter duas exposições simultâneas. 
A de Sevilha e a de Barcelona. Esta duplicação é atribuída ao 
general Primo de Rivera, que assim esperava acicatar os ânimos dos 
capitalistas de Barcelona, que exigiam ao governo central uma maior 
participação financeira nas pesadas despesas da sua Exposição 
Internacional. 

Don Miguel Primo de Rivera e Orbaneja demonstrou conhecer bem o 
carácter dos homens ricos de Barcelona. Fora de lá que partira em 
Setembro de 1923, como capitão-geral da Catalunha, para tomar 
Madrid. Seis anos depois a ditadura do general era já um fardo pesa¬ 
do para o país e as convulsões nas universidades, nas regiões autono¬ 
mistas e em alguns sectores do exército conspiravam contra ele. 

Em 14 de Abril de 1929, António Ferro publicava no Diário de 
Noticias uma entrevista feita em Madrid a Primo de Rivera. E des¬ 
creve o ambiente até chegar ao ditador: “Antes de chegar a Madrid, 
através da Galiza, através de Leon, através de Castela, eu senti, de 
facto, uma atmosfera carregada, soturna, inflamada de boatos, ouvi o 
tinir das espadas desembainhadas, a ameaça espectral do «Quem 
vem lá...» Em Madrid, dizia-me essa atmosfera, não se podia falar, 
não se podia sorrir, não se podia cruzar uma rua, não se podia dar um 
passo sem um passo vigilante no seu encalce... Madrid, porém, rece¬ 
beu à gargalhada o meu perfil desconfiado, a minha cautelosa más¬ 
cara. Cheguei num dia claro, num dia sem sombras, sem 
mal-entendidos. Madrid estava na rua, como sempre.” 

Ferro vai ao encontro do ditador, que caracteriza como um espanhol 
da tertúlia, simpático e familiar, e passa a mensagem que este faz 


d 


16 






questão de endereçar a Portugal: “Sigo, de longe, atentamente, a 
obra admirável do actual governo do seu país, a obra de fomento e a 
obra financeira”, diz o general, enaltecendo o momento amistoso das 
relações entre os dois países. António Ferro arrisca a pergunta difícil 
sobre a preocupação que se vive em Portugal acerca da situação no 
regime espanhol. Ri vera é orgulhoso na resposta: “Não lhe escondo 
que há um sector do país, um sector insignificante, que se mostra 
descontente com a minha obra, uma obra que seria falhada se agra¬ 
dasse a todos. Esse sector, porém, interessa-me, convém-me, porque 
tem um papel a desempenhar. E a minoria indispensável para 
demonstrar a força da maioria.” 

A resposta quanto à possibilidade de se ter evitado os confrontos nas 
universidades é lapidar: “Impossível! Tinha chegado o momento de 
dar uma lição aos que duvidavam da força da ditadura, a essas cha¬ 
madas classes intelectuais que se julgam intangíveis, que pretendem 
substituir-se ao governo. Estavam habituados a uma ditadura mole, 
de panos quentes, a uma ditadura sorridente e generosa. Mas a ver¬ 
dade é que a ditadura é um processo cirúrgico de se salvar as nacio¬ 
nalidades enfermas, uma cicatrização forçada. Tenham paciência. Já 
que assim o querem, hão-de senti-la. 0 que arde... cura.” 

Um mês depois desta conversa era inaugurada a Exposição Ibero- 
-Americana de Sevilha. Estiveram presentes vinte e dois países 
ibero-americanos além de Portugal, Brasil e os Estados Unidos. 
Coordenada pelo arquitecto Aníbal Gonzales, a mostra era composta 
por zonas para acolher os países participantes e algumas salas temᬠ
ticas, tais como a da história de Sevilha e história ibero-americana e 
arquivo do duque de Veragua. 

A Exposição Internacional de Barcelona seria inaugurada dez dias 
depois da de Sevilha. Tanto numa como noutra receberam no primei¬ 
ro dia os reis de Espanha e o general Primo de Rivera. Na de 
Barcelona participaram cerca de vinte países, excluídos à partida os 
ibero-americanos representados em Sevilha. 

Ambas as exposições pretendiam mostrar o importante desenvolvi¬ 
mento interno que a Espanha vinha a conseguir. A expressão oficial 
do governo estabelecia os propósitos: “Das exposições há-de resultar 
o auge comercial do dia de amanhã e uma corrente de turismo cons¬ 
tante e metódico de futuro.” 0 general Primo de Rivera, sobretudo, 
investia no espectáculo que Espanha assim dava ao mundo para 
tentar recuperar a sua imagem desgastada, alvo de críticas constan¬ 
tes na imprensa internacional. Este seria o esforço final do general, 
que a 28 de Janeiro de 1930 apresentou a sua demissão e do seu 


17 



governo a Afonso XIII. O seu afastamento seria também, mais uma 
vez, o prenuncio de tempos difíceis para a monarquia espanhola, 
cujo segundo ciclo tinha já morte anunciada. Mas para se entender 
este momento que a Espanha vivia é imprescindível recuar na 
História e assistir à chegada ao trono do pai de Afonso XIII. 

Quando Afonso XII se tornou rei, a monarquia em Espanha conhe¬ 
ceu um entusiasmo que desde há cerca de um século não sentia. Até 
mesmo a Catalunha foi esfuziante e, com a queda da capital dos 
carlistas em 1876, a Espanha entrou num período de paz. Esta paz 
interna seria consolidada dois anos mais tarde na maior frente exter¬ 
na espanhola: Cuba. Tornava-se nessa época evidente que o separa¬ 
tismo cubano não poderia ser esmagado pela via militar, e a opção 
política foi a de acalmar os ânimos dos Cubanos com a promessa 
de uma maior autonomia. 

Republicanos e liberais espanhóis reviram-se na Constituição de 
1876, deliberadamente conciliatória em termos políticos e religiosos. 
Nela estava contemplada a liberdade de credo e uma maior tolerân¬ 
cia religiosa. As cortes, que passaram a ter um carácter misto, po¬ 
diam ser dissolvidas apenas pelo rei e a sua dissolução teria que ser 
seguida de constituição de novas cortes no prazo máximo de três 
meses. Esta Constituição, que reforçava o poder do governo central — 
para desespero dos Bascos — esteve em vigor até ao segundo colapso 
da monarquia, em 1931. 

Durante vinte anos o líder conservador e o líder liberal - Cánovas e 
Sagasta - alternaram no poder de forma pacífica. 

Em termos económicos, a situação do país mantinha-se no entanto 
preocupante. Não só a guerra civil e a guerra de Cuba tinham depau¬ 
perado o Orçamento de Estado como a colecta de impostos, em cer¬ 
tos anos, não se revelava suficiente para, sequer, pagar os custos da 
sua recolha. A classe mais afectada pelos impostos foi a camponesa, 
que iniciou grandes movimentos migratórios para a América e 
África. Mas foi nas universidades que se gerou o maior pólo de 
inquietação, pretendendo afirmar uma maior independência em rela¬ 
ção à Coroa e à Igreja. Uma discussão que se estendeu às duas maio¬ 
res forças políticas. 

Ao longo destes anos, Afonso XII foi polémico em duas ocasiões: 
quando em 1883 visitou a Alemanha, esfriando assim as relações da 
Espanha com a França e, dois anos depois, quando interveio contra o 
seu governo na questão da liberdade de comércio e do proteccionis- 
mo, colocando-se do lado da Catalunha, que pretendia um mercado 
protegido para os seus produtos industriais. 


18 



Quando o rei morreu, com vinte e sete anos, o problema da sua 
sucessão foi crucial para o regime durante seis meses. E que o rei 
apenas tivera filhas do seu casamento com a rainha Maria Cristina 
da Áustria, mas a rainha viúva estava grávida e, meio ano depois, em 
1886, nasceu Afonso XIII, nascido rei. 

A rainha foi uma regente sóbria e ponderada até Afonso XIII ter 
idade para ocupar o trono. Começou por convidar Sagasta para for¬ 
mar governo. Este reafirmou o sistema sufragista e em 1890 estabe¬ 
leceu o princípio do sufrágio universal a partir dos vinte e quatro 
anos. Mas uma das reformas que Sagasta não teve força para impor 
foi a do afastamento dos militares da esfera política. O exército fora 
responsável pela instauração da república e pelo regresso à monar¬ 
quia. A sua penetração na área política era inalienável. Um caso 
exemplar é o da exigência feita pelos generais de julgamento em tri¬ 
bunal marcial nos casos de litígio entre o exército e a imprensa. 

Em 1890, Cánovas substituiu Sagasta e levou a efeito as primeiras 
eleições sol) o princípio sufragista que o seu adversário político esta¬ 
belecera. Dois anos depois, enquanto decorriam as celebrações dos 
quatrocentos anos da Descoberta da América por Colombo, dá-se em 
Espanha a primeira greve de mineiros em Bilbau, de bandeira socia¬ 
lista, e o primeiro atentado bombista em Barcelona. 

Barcelona vinha a tornar-se o principal centro espanhol do anarquis¬ 
mo. As ideias de Bakunine propangandeavam-se fertilmente no 
terreno dos grandes latifúndios agrários e Barcelona começara a ser 
desde há muito a cidade de refúgio para os camponeses esfomeados 
da Catalunha, sobretudo os de Múrcia depois das grandes cheias de 
1879. Os ideais anarquistas foram transportados por esta mole huma¬ 
na que começou a ocupar a cidade e aí proliferaram no meio indus¬ 
trial. Buscavam a promoção da liberdade individual e catalisavam a 
ancestral rebeldia para com o poder de Madrid. A partir de 1888, o 
anarquismo em Barcelona juntou as suas forças às da Confederação 
Nacional do Trabalho, o sindicato mais forte da cidade. Acentuou-se 
aqui o fosso profundo que durante meio século iria dividir os traba¬ 
lhadores espanhóis em dois campos opostos: Catalunha e o anarco- 
-sindicalismo; Madrid e Castela e a aposta nas soluções nacionais. 
Declarada a bancarrota do Estado por Cánovas, Sagasta tentou pela 
primeira vez aprovar um orçamento realista, com um forte aumento 
na carga tributária, mas a reacção foi tão violenta que ele acabou por 
desistir. No último mandato de Cánovas reacende-se a guerra de 
Cuba, desta feita com proporções dramáticas. Em 1897, Cánovas é 
assassinado em consequência da dureza da sua política para com os 


19 



anarquistas de Barcelona e Sagasta finalmente concede autonomia a 
Cuba e Porto Rico. Esta concessão, para a atitude impaciente que os 
Estados Unidos já tinham revelado quanto à solução para Cuba, veio 
tarde de mais: a explosão de um cruzeiro americano em Havana foi o 
pretexto para um ataque às ilhas Filipinas e para um conflito nas 
Caraíbas, que só se resolveria com a tutela temporária dos Estados 
Unidos sobre Porto Rico e as Filipinas. 

0 jovem Afonso XIII jurou observar a Constituição em Agosto de 
1902, quando contava apenas dezasseis anos. O início do seu reina¬ 
do coincidiu com a emergência de novas forças políticas não repre¬ 
sentadas pelos dois partidos que até aí tinham assegurado a 
continuidade da governação: socialismo e catalanismo transferiram a 
luta política para as ruas. O rei teve a prova disso no próprio dia do 
seu casamento com a princesa inglesa Vitória Eugênia, em 1906, 
altura em que se deu uma tentativa de regicídio. 

Eduardo Mendonza, em A Cidade dos Prodígios , ficciona a inauguração 
da Exposição de Barcelona pelo rei, e relembra as marcas desse atenta¬ 
do na memória de Afonso XIII: “Por mais que as autoridades locais 
lhe prodigalizassem lisonjas, que os homens importantes da cidade 
se desdobrassem em cachorrices e embora estivesse decretado que a 
ocasião fosse festiva, Sua Majestade D. Afonso XIII resistira a pôr de 
lado o seu ar taciturno. Instalado no Palácio de Pedralbes, recordava 
vivamente aquele acontecimento terrível sucedido vinte e três anos 
atrás. Era nessa ocasião muito jovem e acabava de contrair matrimó¬ 
nio com a princesa Vitória Eugênia de Battenberg. Apesar da chuva 
miudinha, a multidão aglomerava-se nas ruas de Madrid para ver 
passar o cortejo; o augusto par tinha saído da Igreja de S. Jerónimo, 
onde se realizara a cerimónia nupcial, e dirigia-se agora ao Palácio 
de Oriente na carruagem real. Ao passar pela Calle Mayor lançaram 
uma bomba de um andar, a qual caiu à frente da carruagem e explo¬ 
diu imediatamente. Sabendo-se ileso, ele voltou-se para a mulher. 
Estás bem?, perguntou-lhe. O vestido da noiva ficara tingido de ver¬ 
melho, salpicado do sangue dos espectadores e dos soldados da 
escolta. A princesa Vitória Eugênia moveu a cabeça com serenidade. 
Yes, disse simplesmente. Tinham morrido entre vinte a trinta pessoas 
em consequência do atentado. Ao chegar ao palácio os monarcas cor¬ 
reram a mudar de roupa. Afonso XIII encontrou um dedo entre as 
dobi ’as da capa. (...) Desde então Afonso XIII considerava os 
Catalães gente hostil, de conduta arrebatada e imprevisível.” 

Apesar da desistência imperial de 1898, a Espanha adquire a partir 
de 1904 a responsabilidade sobre Marrocos, explicitada no Acordo 


20 









Franco-Espanhol de 1912. A necessidade de pacificara zona não era 
no entanto bem acolhida na frente interna. De tal forma que em 
1909, quando Melilla sofreu um ataque violento, o reforço às tropas 
espanholas no local feito a partir de Barcelona originou um levanta¬ 
mento generalizado, uma greve geral e teve como consequência uma 
série de mortos. Como represália, foram levadas a cabo algumas exe¬ 
cuções, entre as quais a do doutrinador anarquista Francisco Ferrer. 
O movimento de opinião que se levantou por toda a Europa foi deci¬ 
sivo para o líder conservador no poder, Maura, que é forçado a sair. 

A Semana Trágica, como ficou conhecida, exacerbou os ânimos ten¬ 
sos entre a Catalunha e Madrid. O regionalismo catalão estava já 
representado nas duas casas do Parlamento desde 1901 e ia sendo 
reforçado pela promulgação de algumas leis manifestamente hostis à 
intervenção catalã na esfera da defesa. E nessas circunstâncias que 
se forma uma frente única regionalista, a Solidaritat Catalana. 
Inesperadamente, consegue uma vitória importante: a criação, em 
1914, da Mancomunitat, uma federação das quatro províncias catalãs 
investida de alguns poderes e prerrogativas até aí do domínio cen¬ 
tral, tais como educação, comunicações e serviços sociais. 

Apesar de algumas concessões do governo central e da Coroa à opinião 
pública e aos movimentos regionalistas, a Igreja permaneceu irredutí¬ 
vel durante todo este tempo: senhora do monopólio da educação e 
fechada à admissão da dissidência religiosa. As tentativas de negocia¬ 
ção política com o Vaticano nesta fase nunca foram bem sucedidas e os 
sentimentos de contestação e de anticlericalismo expandiram-se. 

A eclosão da Primeira Guerra Mundial criou uma nova divisão no 
território espanhol, para a qual contudo foi encontrada uma solução 
sensata, a da neutralidade. Enquanto Exército, Igreja e conservado¬ 
res pendiam para o lado alemão, opinião pública, liberais e regiona¬ 
lismos basco e catalão simpatizavam com a causa aliada. O período 
de guerra favoreceu um novo surto migratório das zonas de Múrcia e 
Almeria para Barcelona. 

As acções dos anarco-sindicalistas e dos socialistas chegaram a con¬ 
vergir de forma inédita. Um indicador da instabilidade política em 
Espanha é a sucessão de governos - quatro durante o ano de 1917 - 
e o surgimento de juntas de defesa militares, expoente do 
corporativismo nas Forças Armadas de Espanha, que intervinham 
cada vez que pensavam estar ameaçado o papel dos militares. As 
tentativas de conter os movimentos anarco-sindicalistas e a sua esca¬ 
lada de violência foram debaldados pelo aumento das acções terro¬ 
ristas e em 1921 o primeiro-ministro é assassinado. 


22 



Nesse mesmo ano o Exército espanhol sofre uma séria derrota em 
Marrocos: sob as ordens de Abd El-Krim uma força de vinte mil 
espanhóis é esmagada e empurrada para o mar. No ano seguinte, 
surge na Catalunha um movimento verdadeiramente separatista, o 
Estat Català, cuja ala esquerda se alia aos separatistas bascos e 
galegos. 

A 13 de Setembro de 1923, o capitão-geral de Barcelona, general 
Primo de Rivera, toma o poder em Madrid, com o apoio do rei, e 
suprime as liberdades constitucionais e as cortes. 

0 novo regime ditatorial começou por granjear as boas graças da opi¬ 
nião pública, interessada na reposição da ordem. Duas conquistas 
garantiam bons auspícios ao governo de Primo de Rivera: a aliança 
com os Franceses — e consequente rendição de Abd El-Krim em 
1926, permitindo o início da pacificação de Marrocos —, e um orça¬ 
mento equilibrado, sem recurso a empréstimos externos. 

Contra a ditadura reverteu a abolição dos partidos, que passaram a 
agir na clandestinidade, e o antagonismo da Catalunha devido ao 
progressivo movimento de centralização operado. Em 1925, Primo de 
Rivera abole a Mancomunitat, no ano seguinte forma o seu partido, a 
União Patriótica, e no outro constitui a Assembleia Nacional. A sua 
política ferreamente clerical levantou contra ele os intelectuais e as 
universidades e finalmente o impacto do crash da Bolsa da 1929 
fê-lo perder o apoio do exército. 

A política económica de Primo de Rivera assentava no proteccionis- 
nio e no grande desenvolvimento das obras públicas. Apoiando-se 
numa boa con juntura exterior que permitia a exportação de matérias- 
-primas e produtos agrícolas, o governo conseguiu ir insuflando 
dinheiro no circuito económico, apesar da dívida pública continuar a 
ser colossal. A sobrevalorização artificial da peseta, por razões de 
prestígio, provocou uma forte fuga de capitais e acabou por criar 
crescentes dificuldades na venda de produtos ao exterior. 

Durante o ano de 1929 cresceu a fúria dos universitários contra a 
ditadura. As desordens ocorridas em Madrid começam a repercutir- 
-se em Barcelona a partir de 20 de Abril. Por detrás dos tumultos 
estava a organização estudantil, Federação Universitária Espanhola 
(FUE), com reclamações de carácter universitário mas também ideo¬ 
lógico, fortalecida por algumas cedências pontuais do governo nas 
medidas educativas. 

No final do ano de 1929, o general Primo de Rivera expõe aos seus 
colaboradores o que pensa ser uma solução política: a designação 
por Afonso XIII de um civil de direita que diri ja um governo de tran- 


23 




O general Primo de Rivera, e parte do seu governo, visitam a Exposição. 
O ditador, pouco tempo depois, exila-se em Paris. 


sição. A Assembleia deveria ainda funcionar até Setembro de 1930, 
altura em que seria eleita uma nova. No entanto, o rei, que jogava em 
frentes dúbias com o exército, considera a ditadura um perigo para a 
disciplina militar e mostra vontade de voltar ao terreno institucional. 
O general Primo de Rivera revela, depois de uma reunião com o rei 
no dia 31 de Dezembro de 1929, que o seu objectivo principal é ape¬ 
nas o de retirar-se condignamente. A 21 de Janeiro do ano seguinte 
faz um último apelo aos generais para que estes declarem que toma¬ 
ram o poder por proclamação dos militares, mas estes reafirmam 
apenas a sua obediência ao rei. Em 28 de Janeiro de 1930, o general 
Primo de Rivera, marquês de Stella, e todo o seu governo apresentam 
a demissão. Nesse mesmo mês, enquanlo ainda decorre a Exposição 
Internacional d e Barcelona, Primo de Rivera exila-se em Paris. 

A monarquia em Espanha não iria durar muito mais: Afonso XIII não 
consegue reunir novas cortes no prazo constitucional e os seus poble- 
mas com a governação continuaram alé às eleições de 1931, quando, 
embora o voto monárquico fosse superior no meio rural, as cidades 
votaram maioritariamente republicano. Sem abdicar, o rei exilou-se 
também em Paris. 

Esles anos de 1929 e 1930 assistem ao surgimento embrionário de 
alguns movimentos de carácter social e cultural, que terão importân¬ 
cia mais tarde. Por exemplo, a crescente participação cias mulheres 
na esfera política e a sua entrada progressiva na educação superior. 
E o caso da nomeação em Março de 1928 de três mulheres para con- 


24 




selheiras da Câmara Municipal de Sevilha. Em 1930, a indústria têx¬ 
til de Barcelona conta com mais trabalhadoras do que trabalhadores, 
vinte por cento das quais têm entre doze e dezanove anos. Quanto à 
educação, enquanto em 1900 havia apenas uma estudante universi¬ 
tária, trinta anos depois esse número subiu para 1681. 

A Opus Dei é criada em Outubro de 1928 pelo sacerdote aragonês 
José Maria Escrivá de Balaguer. Pretendia recuperar para o cristia¬ 
nismo os jovens universitários espanhóis. O grupo que acompanha 
Monsenhor Escrivá é composto por doze jovens, quatro dos quais 
serão mais tarde ordenados sacerdotes e um deles, Álvaro dei 
Portillo, será o sucessor do presidente da obra depois da sua morte. 
No entanto, até 1939, a Opus Dei irá passar despercebida. 

O mês da criação da Opus Dei é também o de estreia de Um Cão 
Andaluz , um filme de Bufíuel que fora feito em colaboração com 
Salvador Dali e que marca o surrealismo espanhol. Bufíuel e Dali 
formavam, com Federico Garcia Lorca, um núcleo duro dentro da 
Resistência de Estudantes de Madrid, sendo este último bastante cri¬ 
ticado por, definitivamente, não se enquadrar no surrealismo. A assi¬ 
natura de Bufíuel e Dali não voltará a surgir associada, depois da 
zanga que os irá afastar para o resto da vida e que será fonte de polé¬ 
mica pública. 

Os movimentos vanguardistas espanhóis não tiveram expressão na 
Exposição Internacional de Barcelona. Como todas as manifestações 
culturais em regimes de ditadura, as opções estéticas of iciais passa¬ 
vam pelo conservadorismo. Numa época em que a criatividade artís¬ 
tica se manifestava pela oposição ao tradicionalismo, em ruptura com 
o passado, a opção dos regimes valorizava um modelo estático de 
sociedade. Que se reflectia em opções estéticas que preferiam a tra¬ 
dição, cultivando uma mística de valorização do passado histórico e 
de permanência temporal. 


A CIDADE DA EXPOSIÇÃO 

H or decreto de Isabel II, em 1833 Barcelona tornou-se uma das 
quatro províncias espanholas que formam a Catalunha. No final 
dos anos 20 deste século era a província espanhola de maior densida¬ 
de populacional e o maior entreposto comercial e industrial do país. 
Barcelona constituíra uma muralha defensiva face às investidas dos 
muçulmanos, que chegaram a conquistá-la, tendo sido expulsos por 
Carlos Magno. Passou nessa altura a ser condado mas, por casamento 


25 




de Fernando e Isabel, quando Castela e Aragão se uniram, foi inte¬ 
grada em Espanha. 

Luís XIV declarou-a república independente sob o protectorado dos 
Bourbons, mas esse estatuto não foi duradouro. Napoleão ocupou-a 
por duas vezes, em 1808 e em 1813, e há quem atribua à influência 
da Revolução Francesa e ao espírito liberalista a tradição barcelo- 
nense de adesão e simpatia pelas causas anarquistas e socialistas. 

O município de Barcelona ocupa um espaço de 7500 hectares, em 
1930 dividido em dez distritos, por sua vez subdivididos em bairros. 
0 núcleo central da cidade de Barcelona nesta época é o monte 
Taber, encimado pela Catedral, e o maciço de Montjuic, resgatado ao 
mar desde a pré-história. Ao lado estende-se uma grande planície, 
cortada pela foz do rio Llobregat que forma um delta com a foz do rio 
Bésos. 

Cidade marítima rodeada de montanhas, Barcelona tem um clima 
ameno, com uma média de 16 graus centígrados anuais e uma ampli¬ 
tude que vai de zero graus no Inverno (mínimo), a 32 graus centígra¬ 
dos no Verão (máximo). As diferenças de temperatura entre o dia e a 
noite também não são muito pronunciadas. 

No início do século o crescimento populacional de Barcelona foi o 
mais acentuado de todas as populações espanholas: enquanto em 
1901 tinha 562 mil habitantes, em 31 de Dezembro de 1928 a popu¬ 
lação estava estimada em cerca de 841 mil habitantes. 

Durante muitos séculos, até quase ao final do XIX, as muralhas divi¬ 
diam muito claramente a cidade dos baldios das cercanias até ao 
limite em que a vida dentro de muros se tornou insuportável. 
Barcelona chegou a ter uma densidade populacional de 700 habitan¬ 
tes por hectare sendo a densidade, na mesma época, em Londres, de 
128 habitantes por hectare, por exemplo. 

Esta concentração populacional, grandemente aumentada quando 
começaram as obras para a primeira exposição internacional de 
Barcelona, que atraíram pessoas de toda a província, conduziu a 
situações graves como o rápido alastrar de qualquer doença até se 
tornar uma epidemia mortal, a ausência total de água potável por 
longos períodos, a acumulação de famílias em espaços exíguos. 
Apesar de há muito se ter tornado evidente para os diversos alcaides 
da cidade que a solução só poderia passar por um alargamento para 
fora dos muros, esta decisão demorou a ser posta em prática devido à 
necessidade de um plano de desenvolvimento urbano. Chamou-se, 
finalmente, Plano Cerdá, e veio directo de Madrid com carácter impo- 
sitório. A zona desenvolvida a partir de 1859 no plano é ainda hoje 


26 



conhecida por Ensanche e consiste num traçado de quadrícula que a 
especulação de terrenos e imobiliária viriam a tornar diferenciado. 

De facto, consoante a época a que remonta a venda de terrenos e a 
construção, o Ensanche alberga edifícios e zonas completamente dis¬ 
tintas: habitação de luxo para a classe alta seguida de zonas 
construídas com materiais baratos, espaço exíguo e poucas condições 
de habitabilidade. 

Em 1930, o dia-a-dia em Barcelona desenrola-se a partir da artéria 
principal da parte antiga da cidade, ou seja, as Ramblas, e do Bairro 
de Atarazanas, junto ao porto e que, por decreto real de 1927, sofreu 
uma profunda reforma. 

A parte antiga e moderna de Barcelona ligam-se na Praça da 
Catalunha, arranjada para a exposição e que constituía uma das pra¬ 
ças mais impressionantes das cidades europeias. Três grandes vias 
atravessam o nücleo urbano: o Paralelo e a Meridiana mantiveram as 
suas características originais, enquanto a Avenida de Afonso XIII foi 



Montjuic na altura da Exposição. Esta parte da cidade sofreu alterações urbanísticas 
profundas para acolher o grande acontecimento. 


melhorada e asfaltada. Esta avenida atravessa a cidade desde o 
Palácio Real de Pedralbes até à Praça das Glórias Catalãs, projec- 
tando-se na altura o seu prolongamento até à foz do rio Bésos. 

Os bairros pobres nas imediações do Parque de Montjuic beneficia¬ 
ram da sua aproximação à exposição, tendo sido alvo de grandes 
melhoramentos. Junto ao porto fica a zona balnear da época, o bairro 
marítimo de Barceloneta, situado numa língua de terra triangular. 


27 












As praças que mais beneficiaram da exposição de Barcelona são as 
da Catalunha e de Espanha. A primeira foi dotada de jardins e 
alguns conjuntos escultóricos de artistas da época. Concentram-se na 
Praça da Catalunha as estações de caminhos-de-ferro do Norte, da 
Catalunha e de metropolitano. Quanto à Praça de Espanha, ganhou 
com a exposição a construção de uma fonte monumental e polémica. 
Barcelona conta com uma série de jardins e parques. Destacam-se os 
do Parque da Cidadela — onde se realizou a primeira exposição inter¬ 
nacional de Barcelona - pela variedade e o Parque de Montjuic. Este 
último, de solo pedregoso, foi transformado sol) a direcção do arqui- 
tecto Forestier, que tentou miscigenar as tradições francesa e inglesa 
de jardinagem. 

A cidade também é profícua em edifícios religiosos, muitos deles 
reformados depois dos motins de 1909 e outros construídos nessa 
data. Um exemplo de destruição e reconstrução sucessivas é o antigo 
Mosteiro de S. Pedro das Puellas. A sua primeira reconstrução data 
de 1117, seguida de destruição pelo cerco francês a Barcelona em 
1697 e nova reconstrução. Em 1714 foi palco para as lutas entre os 
partidários do arquiduque de Áustria contra as tropas de Filipe V, 
em 1909 foi incendiado durante a Semana Trágica. 

Também a Igreja de San Pablo dei Campo foi vandalizada e os alta¬ 
res destruídos e posteriormente reconstruídos. Igualmente destruída 
nos motins de 1909 foi a Igreja de Nossa Senhora dei Carmen, 
reconstruída pelo arquitecto José Maria Pericas. 

O edifício de Santa Madrona foi construído modernamente com ladri¬ 
lhos no arcos e sofreu pouco em 1909. A Capela de Marcus, români¬ 
ca, datada de 1166, ficou muito danificada em 1909 e a sua 
reconstrução obedeceu ao estilo românico. San Andrés de Palomar, 
reconstruído no seu estilo clássico de naves em forma de cruz, foi par¬ 
cialmente destruído na mesma data, tendo-se perdido uma biblioteca 
de oito mil volumes, uma colecção de numismática e um museu. 
Quanto ao templo de uma só nave de San Juan de Horta, datado do 
século X, só sobrou o campanário, a partir do qual foi feita a recons¬ 
trução. Já o templo de San Juan de Gracia, de 1875, teve que ser 
reconstruído de raiz uma vez que a sua destruição foi total. Santa 
Maria dei Taulat é outro caso de reconstrução quase total. A Igreja 
de Santa Maria de Provensals, que ficara terminada apenas em Julho 
de 1909, sofreu no mesmo ano destruição parcial. 

Recentes são as Igrejas de São José Oriol, em estilo bizantino, a góti¬ 
ca Sagrado Coração de Jesus e a moderna Igreja de San Ramón de 
Collblanch. 


28 




Vista aérea do Parque de Montjuic durante a Exposição. A arquitectura dos edifícios 
foi um dos aspectos mais atractivos para os visitantes. 


0 incremento e restauro dos edifícios civis teve o seu início neste 
século em 1909. Destaca-se neste campo o restauro das Casas 
Consistoriais com a fachada gótica da Rua da Cidade, da galeria 
gótica e da Loja do Trentenário. Por detrás das Casas Consistoriais 
foi construído um edifício destinado a ser ocupado por oficinas muni¬ 
cipais que se une ao antigo Palácio do Conselho Municipal através 
de um arco-ponte. 

O Palácio de la Diputación foi liberto das construções postiças 
que o ladeavam e aumentado com a Casa de los Canónigos. 
A galeria gótica e a Capela de São Jorge são, entre as zonas res¬ 
tauradas, as de maior impacto. A acrescentar ao que foi restaurado 
há zonas de construção moderna e outras que foram reformadas 
para novas utilizações. Para tal, contribuíram as prestações dos 
mais importantes pintores catalães e valencianos da época que 
compõem parte da decoração com evocações dos momentos histó¬ 
ricos da cidade. 

O Palácio Real de Pedralbes é uma sumptuosa construção iniciada 
em 1924 que, com os seus jardins, ocupa uma vasta área do campo 
de Sarriá. A escadaria de honra e o Salão do Trono são expoentes da 
riqueza de utilização de materiais e de decoração deste palácio. 


29 





A Estação de França, situada na Avenida Marquês de Argentera, de 
construção sóbria, ocupa só na sua fachada um comprimento de 125 
metros, nas extremidades da qual se situam dois edifícios em prolonga¬ 
mento, formando um U em cujo interior se fez um parque para albergar 
as carruagens dos via jantes. Existem ainda no edifício uma série de enge¬ 
nhos para facilitar a carga e descarga de mercadorias e acesso à estação 
de correios. 0 pé-direito de cada sala do edifício mede 25 metros. 

Os arquitectos Goday e Torres dirigiram a construção do edifício dos 
Correios, a expensas do município de Barcelona. Terminado em 
1928, o edifício entrou em funcionamento em Maio de 1929, por 
alturas da inauguração da exposição. 

No campo das edificações militares conta-se o edifício da Capitania- 
-Geral, completamente reformado nos anos de 1928-29. Entre outras 
novidades, foi feita uma nova fachada para o Passeio de Cólon inspi¬ 
rada na arquitectura espanhola do século XVII. A reconstrução geral 
contém elementos que prestam homenagem a quatro momentos 
importantes na história do edifício: a sua construção, em 1636, a 
adaptação a Capitania em 1844, o golpe de Estado em 1923 e a res¬ 
tauração terminada ün 1929. 

Um dos ex-líbris actuais de Barcelona é a Catedral da Sagrada 
Família, um exemplo peculiar do que o modernismo veio permitir 
em termos arquitectónicos. 0 seu autor, Antoni Gaudí i Cornet, 
morreu três anos antes da inauguração da exposição de Barcelona, 
deixando esta obra inacabada. Arquitecto criador de novas e origi¬ 
nais formas, engenheiro que esgotou as possibilidades técnicas ofe¬ 
recidas pelos materiais de construção que utilizava, Gaudí marcou 
Barcelona mais do que qualquer dos edifícios construído ou restau¬ 
rado para a exposição, não só com a Sagrada Família mas também 
com as construções do Parque Gíiell, cujas colunas parecem desa¬ 
fiar as leis da gravidade. 

A indústria têxtil foi o grande motor do desenvolvimento de Barcelona 
durante os anos 20 deste século, apoiada nas facilidades mercantis 
oferecidas pelo seu porto. À semelhança do que aconteceu um pouco 
por toda a Espanha, Barcelona também beneficiou nesta época do 
grande programa de obras públicas promovido pelo general Primo de 
Ri vera, que fez crescer a economia e diminuir o desemprego. 

A forte industrialização, o êxodo do campo para a cidade, as difíceis 
condições de vida da maior parte da população e a simpatia de que 
gozavam os movimentos anarquistas na zona da Catalunha criaram 
situações de grande instabilidade social, greves e revoltas durante 
toda a década, que deram continuação aos movimentos do início do 


30 



século. As relações entre Barcelona e o governo central eram tam¬ 
bém tradicionalmente difíceis pelas tendências autonomistas da 
região. 

No final dos anos 20, a maior parte da força de trabalho nos têxteis é 
já feminina. Nessa época, segundo dados da Câmara Municipal de 
Barcelona, o quadro da população activa por sectores apresentava-se 
da seguinte forma: cerca de 202 mil homens e 74 mil mulheres esta¬ 
vam em situação de trabalho activa nesses anos. O peso maior, nos 
homens, era no comércio (53 mil) e nas mulheres nos têxteis (35 mil) 
seguidas, no caso das mulheres, das confecções (11 mil) e do comér¬ 
cio (11 mil). No caso dos homens logo a seguir ao comércio situa-se a 
metalurgia (33 mil), a construção (25 mil), e os serviços públicos (21 











m 


As fontes e os jogos de água eram atracções irresistíveis, sobretudo durante a noite, 
quando as luzes multicolores eram acendidas. 


mil). Seguem-se, com muito menor importância na estrutura do 
emprego e por ordem decrescente, a indústria da madeira, os trans¬ 
portes, branqueio e tinte, gráficas e editoras, têxteis, químicas, ali¬ 
mentação, confecções e outras indústrias, cerâmicas e vidro, coiros e 
peles, profissões artísticas e científicas, indústria de papel e cartão, 
minas e pesca. 

A lista de entidades bancárias existentes em 1929 em Barcelona dá 
uma ideia da importância da cidade a nível financeiro. A oferta é 
vasta e variada: uma sucursal do Banco de Espanha, Banco 


31 











Comercial da Cataluíla, Banco da Cataluíla, Sociedade Anónima 
Arnús-Gary, Banco Anuis, Banco Hispânico Colonial, Banco de 
Empréstimos e Descontos, Filhos de Majin Valls, Garriga-Nogués, 
Soler e Torra Hermanos, Banco Tusquets, Banco Marsans, Crédito e 
Docks de Barcelona, Banco Urquijo Catalão, Banco Central, Banco 
de Viscaya, Banco de Bilbao, Banco Calamarte, Banco Hispano- 
-Americano, Banco Espanhol cio Rio da Prata, The Royal Bank of 
Canada, Anglo-Sonth American Bank, Banco Alemão Transatlântico, 
Banco de Roma, Crédit Lyonnais, International Banking Corporation, 
Société General de Banque são os mais importantes. Existiam ainda 
como centros financeiros de monta a Bolsa, o Casino Mercantil e o 
Banco Vitalício, de seguros. 

O comércio da cidade conta com a existência de grandes bazares e 
aos grandes grupos comerciais juntam-se importantes companhias de 
transportes como é o caso das companhias de navegação 
Transmediterrânea e Transoceânica, várias empresas de caminhos- 
-de-ferro, a Companhia Catalã de Gás e Electricidade, a Companhia 
Barcelonesa de Gás e Electricidade, a Companhia de Energia 
Eléctrica da Catalunha, a Companhia de Materiais para os 
Caminhos-de-Ferro e Construções, Fomento de Obras e Construções, 
Construções e Pavimentos e Companhia Geral de Tabacos das 
Filipinas. 

O consórcio do Porto Franco de Barcelona é outra entidade com 
grande importância na época. Tinha como finalidade a criação de 
um porto livre. Devido ao movimento do porto, em 1927 transac- 
cionaram-se em Barcelona 792 milhões de pesetas de importa¬ 
ções e 189 de exportações, num total de cerca de 980 milhões de 
pesetas. 

Situado inicialmente ao lado de Montjuic, onde aproveitava de 
algumas condições naturais favoráveis, o porto de Barcelona foi 
sendo deslocado pela construção de pontões, e já em 1929 era 
um porto artificial que fazia ligação a diversos pontos do 
Mediterrâneo, África, Oriente, Norte da Europa e Américas. 
Segundo dados da Junta de Obras do Porto, o numero de barcos 
entrados no porto de Barcelona em 1928 foi de 5293, dos quais 
cerca de 3500 espanhóis. 

Barcelona conta nesta época com um centro ferroviário de ligação 
ao resto d a Espanha e ao estrangeiro, servido por quatro estações e 
uma série de serviços ferroviários para os principais pontos de 
Espanha e França, num total de cerca de 60 linhas. Além das 
comunicações com o exterior, parte destas linhas serve ainda para 


32 




O início das obras para a Exposição. Esta parte da cidade, esquecida e degradada, 
passou a ser um dos centros de convívio para a população de Barcelona. 

transporte dentro da cidade e de comunicação com os seus arra¬ 
baldes. Nesse caso situa-se também o metropolitano, cpie em 1930 
tinha duas vias: uma que começa na Praça de Lesseps e que se 
subdivide em duas vias, uma com destino às Ramblas e outra até 
ao porto; r uma segunda que parte da estação de caminhos-de- 
-ferro de Sans, subdivide-se a meio do trajecto e volta a unir-se 
desembocando na Estação do Norte. Carruagens de aluguer e um 
parque de 50 mil automóveis completam os transportes da cidade 
no ano de 1930. 

Quanto às comunicações contava nesse ano, além do Palácio Central 
do Correios, com diversas estações de correios e telégrafo, uma rede 
automática de telefones urbanos, estações radiográficas e duas esta¬ 
ções de radiodifusão. 

Por via aérea, Barcelona tem nesta época ligações diárias a Madrid, 
Casablanca e França. 


33 








A PREPARAÇÃO 

DA FESTA 

— 

H primeira exposição internacional ou universal decorreu em 
Londres em 1851, e desde então a realização de exposições inter¬ 
nacionais alastrou pelo Ocidente como uma moda, favorecida pelo 
progresso, boas conjunturas de desenvolvimento industrial e pela 
revitalização dos nacionalismos a partir do início do século XX. 
Barcelona teve uma primeira exposição em 1888, no Parque da 
Cidadela, gratificante para os sentimentos regionalistas da 
Catalunha. 

Em 1913, os políticos e industriais de Barcelona uniram esforços na 
vontade de promover uma exposição universal dedicada às indústrias 
eléctricas, sob o título “Exposição das Industrias Eléctricas”, que 
decorreria em 1917. 0 interesse do núcleo industrial de Barcelona, 
um grupo financeiramente sólido e que procurava alargar a sua área 
de actuação nos mercados internacionais, afectada pelos resultados 
da guerra de Cuba e Filipinas, foi decisivo para o avanço dos traba¬ 
lhos. Na época, a indústria catalã sofria uma transformação pelo 
aproveitamento energético de reservas de hulha branca para a indús¬ 
tria e as perspectivas optimistas não tinham reservas. Ao núcleo duro 
de industriais e políticos juntou-se a burguesia catalã, unida ideolo¬ 
gicamente pelo programa da Liga Regionalista, que visava impor os 
traços distintivos da cultura catalã. 

A Câmara Municipal de Barcelona encabeçou a Junta Directiva da 
Exposição na deslocação a Sevilha, em 1914 - local onde se encon¬ 
travam o rei e o chefe do governo — e conseguiu interessar o governo 
espanhol, que anunciou uma subvenção de dez milhões de pesetas à 
empresa e legislou o reconhecimento da futura exposição como tendo 
um carácter de obra pública. Poucos dias depois deste acordo desen¬ 
cadeava-se a Primeira Guerra Mundial e a exposição ficou limitada 
aos trabalhos de ordem interna, esperando o fim do conflito. Apesar 
de a Espanha não ser beligerante, o estatuto de exposição interna¬ 
cional obrigava à participação activa de países estrangeiros, convida¬ 
dos por via diplomática, e foi necessário esperar que esses países 
recuperassem da guerra. 

A discussão quanto à localização do certame entreteve os ânimos 
durante o compasso de espera. As alternativas mais apontadas eram 
o Parque de Montjuic - que apesar de ter uma área vasta e estar pró¬ 
ximo da centro da cidade tinha como desvantagens ser íngreme, não 


35 





O interior do Palácio Nacional onde decorreu a cerimónia de inauguração 
com a presença do rei. 


ter água e ser necessário construir os acessos de raiz - e um vasto 
terreno situado entre a Praça das Glórias Catalãs e o rio Bésos. Os 
interesses económicos contaram para a decisão final: Montjuic. 
Enquanto a exposição que se realizara de 1888 aproveitara os terre¬ 
nos da Cidadela, não urbanizados ainda por estarem sob jurisdição 
militar, a de 1929 iria aproveitar os terrenos vagos pela proximidade 
do Castelo de Montjuic. A fortaleza fora construída para defender a 
cidade dos ataques do exlerior mas, devido à conjuntura política, 
acabava por servir mais para a atacar ou controlar. Não tendo permi¬ 
tido o derrube do Castelo de Montjuic, o Ministério da Guerra cedeu 
os terrenos que estavam sob a sua jurisdição. Estes, juntamente com 
os terrenos que tiveram que ser expropriados, começaram a sofrer 
trabalhos de ajardinamento e arborização. J. C. N. Forestier, conser¬ 
vador do Bosque de Bolonha em Paris, seria o autor dos projectos 
de ajardinamento dos terrenos das duas exposições, tanto a de 
Barcelona como a de Sevilha. 

A nível de edificações, a obra arquitectónica escolhida como diapa¬ 
são da exposição de Barcelona foi o Palácio Nacional, situado no 
centro da zona da mostra. 

Sob o projecto de Josep Puig i Cadafalch, as obras planeadas desde 
1914 e atrasadas por diversas dificuldades nas expropriações de ter¬ 
renos, ganharam velocidade no ano de 1917 data em que, sob a 
direcção do arquitecto, se iniciaram as construções dos principais 
palácios. 


36 


















Em 1923, a mudança no governo espanhol, com a chegada ao poder 
do general Primo de Rivera, implicou uma recomposição dos mem¬ 
bros da organização da exposição. Em 1925 decidiu-se que a mesma 
teria início em Maio de 1929 - coincidindo com a Ibero-Americana 
de Sevilha, cujos países participantes a nível oficial se excluíam 
automaticamente da de Barcelona. E os trabalhos preparatórios reco¬ 
meçaram no ano seguinte. 

Em A Cidade dos Prodígios , Eduardo Mendonza descreve assim a 
azáfama das obras da exposição: “A montanha de Montjuic foi encer¬ 
rada ao publico; os bosques foram cortados e as fontes encanadas ou 
obstruídas com dinamite; fizeram-se ali taludes e lançaram-se os ali¬ 
cerces do que viriam a ser os palácios e os pavilhões. Como da vez 



xPosicióN Internacional 


Um dos cartazes oficiais da Exposição representando um dos sectores mais fortes 
presentes no evento, a indústria têxtil. 


anterior, os escolhos não se fizeram esperar: o deflagrar da Grande 
Guerra, primeiro, e a reticência do governo de Madrid paralisaram 
sempre as obras. (...) Foi preciso transcorrerem vinte anos para que a 
política de obras publicas do general Primo de Rivera insuflasse 
novo fôlego à ideia. Agora não só Montjuic como a cidade inteira 
seria cenário dos seus projectos colossais: muitos edifícios foram 
demolidos e o piso das ruas foi levantado para se estenderem as 
linhas do metro. O aspecto de Barcelona recordava as trincheiras 


37 





Montjuic iluminado pelos jogos de luzes concebidos 
pelo engenheiro Carlos Buigas y Sans. 


daquela Grande Guerra que tinha dado com a exposição em panta- 
nas. Nessas obras e na da exposição trabalhavam muitos milhares de 
operários, serventes e pedreiros vindos de toda a parte da península, 
sobretudo do Sul. Chegavam em comboios a abarrotar à estação de 
Francia, recentemente ampliada e renovada. Como sempre, a cidade 
não tinha capacidade para absorver esta aluvião. (...) Era sobre esta 
ossatura de sofrimento, depauperamento e rancor que Barcelona 
erguia a exposição que viria a surpreender o mundo.” 

Nesta altura a indústria eléctrica já deixara de ter o carácter de ino- 


38 








vação anterior à guerra, pelo que a exposição passou a contemplar 
uma temática mais vasta e híbrida chamando-se apenas Exposição 
Internacional de Barcelona. No entanto, mesmo este nome acabaria 
por não poder ser definitivo uma vez que o certame se prolongou 
muito para além dos prazos estabelecidos para uma exposição inter¬ 
nacional: tendo sido aberta em 19 de Maio de 1929, foi só encerrada 
em 15 de Julho do ano seguinte, passando a meio do acontecimento a 
ter um carácter apenas nacional. 

Ocupando uma superfície total de 116 hectares e uma superfície edi¬ 
ficada de 240 000 metros quadrados — não tendo em conta os edifí- 


39 







cios menores nem os construídos pelos países com pavilhão próprio e 
entidades particulares a exposição estruturou-se na base da classi¬ 
ficação geral e do seu duplo carácter nacional e internacional, per¬ 
mitindo que países estrangeiros concorressem, quer construindo 
pavilhões independentes, quer apresentando as suas aportações nos 
edifícios construídos pela própria exposição, quer com ambos os 
meios de exibição. 

Estiveram presentes com espaços próprios em edifícios da exposição 
a Checoslováquia, Finlândia, Suíça, Polónia, Estados Unidos, 
Inglaterra, Portugal, Holanda, Turquia, Egipto, Palestina, Pérsia, 
índia, Bornéu, Ceilão, Malta e Afeganistão. Construíram pavilhões 
próprios a Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Hungria, Itália, 
Noruega, Roménia, Suécia e Jugoslávia. 

Segundo despacho aprovado em Conselho de Ministros, sob a presi¬ 
dência de Afonso XIII, o certame desenvolveu-se a partir de três 
grande núcleos: a industria, os desportos e a arte de Espanha. 

À volta dos grandes níícleos foram organizados uma série de iniciati¬ 
vas culturais, colóquios, exposições, seminários, congressos, etc. Fora 
dos núcleos, o Estado espanhol empenhou-se em marcar presença 
através do Pavilhão do Estado — dedicado aos serviços públicos —, 
Pavilhão Real, das Diputaciones, da Cidade de Barcelona, etc. 

Um dos aspectos de maior impacto da exposição foram as 
iluminações concebidas por Carlos Buigas y Sans. A aposta do 
autor foi no jogo de vastas superfícies iluminadas, em conjugação 
com linhas de água luminosas e em contrastes de cores e forma¬ 
tos. A possibilidade de conjugar luzes e construções aquáticas, 
bem como iluminações de edifícios e obras a partir de um posto 
central, permitiu criar espectáculos variados e diversificar o 
espectro das iluminações. 

Para a iluminação geral foram instaladas ao longo da área da exposi¬ 
ção mais de 600 construções em vidro de grandes dimensões e moti¬ 
vos modernos, que projectavam uma luz difusa. A impressão dos 
autores que estudaram a exposição é unânime: se o visitante poderia 
facilmente esquecer o que era exposto nos diferentes pavilhões e 
palácios, já dificilmente poderia olvidar o espectáculo das fontes 
luminosas e dos efeitos variados de luz e cor. 

Os jogos de água e de luzes não eram novidade em exposições inter¬ 
nacionais: eles já tinham sido feitos em 1851 em Londres, em 1893 
em Chicago e em 1915 em S. Francisco, embora não tenham sido, 
como em Barcelona, o principal ponto de atracção da exposição. 
Neste caso, o trabalho de Carlos Buigas na área da engenharia dos 


40 




O recinto da Exposição era pontuado por magníficos jogos de água e de luzes 
que, tão espectacularmente, ilustravam a utilização da corrente eléctrica. 


jogos de água e luzes funcionou como um embrulho moderno e sur¬ 
preendente, disfarçando uma arquitectura pouco criativa. 

0 núcleo industrial da exposição compôs-se de onze pavilhões dedi¬ 
cados à agricultura, indústria, comércio e inovações cientificas apli¬ 
cadas à indústria. Ou seja, os palácios da Secção de Agricultura, 
Arte Têxtil, Vestido, Indústrias Químicas, Electricidade e Força 
Motriz, Artes Industriais e Decorativas, Palácio Afonso XIII ou das 
Indústrias da Construção; Artes Gráficas, Projecções, Trabalho; 
Comunicações e Transportes, Palácio Rainha Vitória Eugênia e 
Material Desportivo. 

O Núcleo das Artes cie Espanha desenvolve-se em dois edifícios, um 
dos quais o Palácio Nacional, o outro da Arte Moderna. A estes dois 


41 






palácios junta-se ainda o Pueblo Espanhol, permanentemente anima¬ 
do por festas populares, concursos, torneios, etc. Este Pueblo, uma 
das estruturas que mais sucesso alcança, como se pode ver pela cró¬ 
nica exuberante de António Ferro, repesca uma ideia apresentada na 
exposição de Paris de 1889. 

O Nücleo dos Desportos tem como construção principal um estádio, 
com campo de jogos e capacidade para 60 mil espectadores. A aten¬ 
ção dada aos desportos é característica da época: desde que a ideolo¬ 
gia fascista se difundira pela Europa os governos fomentavam a 
prática do desporto e procuravam que houvesse uma assistência 
maciça às competições desportivas. O modelo desta febre vai buscar 
traços culturais do Império Romano: as vitórias desportivas passaram 
a símbolos da grandeza de um povo. 

Fora dos núcleos principais destaca-se o Pavilhão das Missões, ao 
qual aderiram todas as missões espanholas do Extremo Oriente, 
África e América, além de algumas missões estrangeiras. Destaca-se 
também o Pavilhão da Cidade de Barcelona, erigido com a preocupa¬ 
ção de revelar aspectos históricos e quotidianos da cidade, o Pavilhão 
do Estado Espanhol e o Pueblo Oriental, constituído por edifícios de 
estilo oriental, representando sobretudo colónias francesas e inglesas 
e que oferece ainda um grande bazar de produtos do Oriente. 

Um teatro grego, talhado no fundo de uma antiga pedreira e com 
capacidade para dois mil espectadores, uma piscina de natação e 
campos diversos de jogos são espaços bastante concorridos da exposi¬ 
ção, bem como os numerosos restaurantes espalhados por toda a zona. 
Para facilitar a circulação pelo recinto foram construídos uma escada 
rolante, vários elevadores, uma pequena linha de caminho-de-ferro 
que circula pelos pontos principais da exposição, uma linha de auto¬ 
carros e de carros. 

A nível arquitectónico a exposição de Barcelona pôs em evidência a 
crise que a arquitectura atravessava nesse período em Espanha. 
A situação política que se vivia desde 1923 colocava os arquitectos 
na posição de procurarem no passado as formas e linguagens que 
lhes permitissem responder ao que lhes era pedido. 

A arquitectura da exposição manifesta um historicismo que haveria 
de ser qualificado de forma pejorativa como ecléctico, uma vez que 
repousa sobre uma mistura de estilos. A maioria dos arquitectos esco¬ 
lhidos, provenientes da Escola de Arquitectura de Barcelona, optou 
por um estilo monumentalista. Tanto a combinação de materiais num 
mesmo edifício como a conjugação dos edifícios pretendia favorecer 
um efeito teatral. Imperavam os modelos classizante e barroco, levan- 


42 



do à sobrevivência de dois estilos diferentes: o novecent ista e o barro- 
quista. O novecentismo é patente nas obras de Pelai Martinez e de 
Ramon Reventós, qne mistura um classicismo mediterrânico ligado a 
um estilo renascentista italiano. A excepção é o Teatro Grego, de esti¬ 
lo helénico, já o Palácio das Artes Gráficas e a Torre de acesso à 
exposição são bons exemplo deste estilo, que não iria fazer escola. Por 
seu turno, o Pavilhão da Cidade de Barcelona, de Josep Goday, iria 
ser reproduzido nas construções escolares da Catalunha durante os 
anos 30. A tendência barroquizante surge na maioria dos edifícios, 
como referência constante aos modelos do século XVIII. 

Tanto uma tendência como a outra, que marcaram a Escola das 
Belas-Artes, procuraram demonstrar a grandeza de um país que, 
apesar de não ter participado na Primeira Guerra Mundial, tinha com 
ela sofrido reveses económicos, sociais e políticos. 

E curioso observar que, mesmo os arquitectos que se situavam nas 
correntes modernistas, nos seus projectos para a exposição puseram 
de parte essa tendência e procuraram a tradição e a história. E o 
caso de Josep Puig i Cadafalch, Luis Domànech i Montaner, que 
fizeram projectos para a exposição de 1917, e Antoni Darder, autor 
dos pavilhões de Arte Moderna, da Companhia de Tabacos das 
Filipinas (no qual upluu pelo estiln déco) e do Pavilhão cio Estado 

Espanhol. Enric Sagnier é a 


O pavilhão da Companhia 
de Tabacos, que reflectia 
um gosto art déco, 
representava as Filipinas. 






excepção a esta regra: o 
seu Palácio das Diputa- 
ciones é tão ecléctico como 
qualquer das suas ohrds 
anteriores ou posteriores. 



43 







indústria acabaram por revelar-se os edifícios mais interessantes do 
ponto de vista arquitectónico, conjugando forma e funcionalidade e 
seguindo duas opções vanguardistas: a arquitectura déco e a raciona- 
lista. No primeiro caso integram-se algumas soluções arquitectónicas 
dos pavilhões da França e da Companhia de Tabacos das Filipinas e 
o Pavilhão dos Artistas Reunidos. O racionalismo surge no pavilhão 
da Suécia e em toda a representação alemã. O pavilhão alemão, a 
cargo do arquitecto Mies van der Rohe e L Reich, foi o mais impor¬ 
tante e inovador edifício de toda a exposição. 


AS OPÇÕES PORTUGUESAS 

H ortugal apostou modestamente na Exposição Internacional de 
Barcelona. A sua representação, não oficial, saldou-se pela 
presença cie algumas empresas que promoveram produtos indus¬ 
triais e de artesanato, com o apoio da Câmara de Comércio e do 
Consulado Português em Barcelona. Esta última entidade haveria 
de se queixar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português 
da fraqueza da representação portuguesa e da oportunidade que se 
perdia ao nível da promoção dos produtos nacionais: “Teria sido 
de grande vantagem para os industriais portugueses o terem-se 
apresentado nesta exposição em maior número e com os seus 
melhores mostruários, visto ser esta a exposição mais visitada, 
tanto pelos nacionais como pelos estrangeiros.” O remoque no 
relatório do cônsul português em Barcelona refere-se à Exposição 
Ibero-Americana de Sevilha, que decorria paralelamente e que, 
essa sim, contou com uma representação oficial portuguesa de 
pompa e circunstância. 

De facto, alguns dias antes da inauguração do certame de Sevilha 
partiu expressamente de Lisboa o paquete João Belo levando a bordo 
97 pessoas, entre os quais os jornalistas João Pereira da Rosa, 
Gustavo de Matos Sequeira, Abel Moutinho, padre Miguel de 
Oliveira e Nogueira de Brito. O paquete dirigiu-se a Sevilha, onde 
ficou ancorado durante uma semana. No dia da inauguração partiram 
ainda três hidroaviões portugueses com destino à capital da 
Andaluzia para abrilhantar a presença portuguesa, num voo que 
durou cerca de três horas. 

A 9 de Maio, data da inauguração da exposição de Sevilha, era divul¬ 
gada uma nota do seu comissário régio, D. José Cruz Conde, dedica¬ 
da a Portugal: “Portugal e Espanha, as duas nações irmãs, devem 


44 




O pavilhão alemão, da autoria de Mies van der Rohe e L.Reich, é ainda hoje exemplo 
do modernismo na arquitectura. Este edifício, assim como a cadeira Barcelona, 
marcaram para sempre os cânones estéticos deste século. 

sentir e realmente sentem, com igual intensidade, o alto e nobre sig¬ 
nificado espiritual do futuro certame ibero-americano que simulta¬ 
neamente renderá uma merecida homenagem ao magnífico, glorioso 
e cultural esforço que os dois países realizaram na América e procu¬ 
rará, seguramente com êxito, criar uma maior inteligência e contacto 
entre povos que por vínculos comuns de raça e de idioma podem e 


45 

























devem entender-se facilmente para cooperar reunidos na santa obra 
de paz e progresso humano.” 

0 ministro dos Negócios Estrangeiros português, comandante 
Quintão Meireles, encabeçou a comitiva portuguesa na inauguração. 
A cerimónia foi presidida pelos reis de Espanha e nela compareceu 
também o general Primo de Rivera, bem como os nomes mais sonan¬ 
tes da nobreza espanhola. Tanto o paquete João Belo como os hidroa¬ 
viões portugueses chegaram durante a cerimónia inaugural e foram 
saudados pela multidão. 

O momento alto da presença portuguesa aconteceria no dia 11 de 
Maio, data da inauguração oficial do pavilhão português, projectado 
pelos irmãos Rebelo de Andrade e executado em 357 dias. Este 
pavilhão funciona actualmente como consulado português em 
Sevilha. 

Para receber os reis nesta cerimónia estiveram presentes Quintão 
Meireles, o embaixador de Portugal Melo Barreto, o comissário régio 
da exposição, a oficialidade da divisão naval, elementos do pavilhão 
e muitos portugueses que propositadamente se deslocaram a Sevilha. 
O rei apresentou-se à cerimónia fardado de almirante e ostentando o 
colar da Grã-Cruz da Torre e Espada. Com ele estavam a rainha 
D. Vitória, as infantas, D. Maria da Paz, tia do rei, os infantes 
D. Carlos e D. Afonso de Bourbon, o general Primo de Rivera e os 
ministros do Trabalho, Fazenda, Graça e Justiça, Instrução e 
Fomento. 

Vale a pena transcrever a prosa do enviado especial do Diário de 
Notícias : “E percorrido em primeiro lugar o salão da agricultura. 
O infante D. Afonso de Bourbon atarda-se um pouco do grupo e fica 
admirando e elogiando os panneaux de Armando Lucena. 

Na Sala das Colónias, D. Afonso XIII marca atenções muito especiais 
pelo stand da Companhia dos Diamantes de Angola. Detém-se demo¬ 
radamente em frente do mapa, em relevo, de Cabo Verde. Diante do 
stand da Companhia dos Caminhos de Ferro de Benguela, o rei mara¬ 
vilha os portugueses que mais perto lhe ficam, falando da África 
Ocidental Portuguesa e dos seus principais problemas, em pleno 
conhecimento de causa. Olha também com interesse evidente o mapa 
colonial português, ao qual faz comentários lisonjeiros. Toda a sala e a 
maioria dos mostruários lhe merecem palavras de encómio.” 

O rei visitará ainda a Sala do Comércio e Industria, destacando com 
a sua atenção os tapetes de Beiriz, os aparelhos náuticos e os traba¬ 
lhos executados no Parque Aeronáutico de Alverca, os mármores, os 
azulejos, os ferros forjados e o stand dos Vinhos do Porto. Uma fonte 


46 



de mármore de Raul Lino, as duas cabeças de elefante encimadas 
por um túnel percorrido por um comboio miniatura da Companhia de 
Caminho de Ferro de Benguela e a reprodução em cristal das melho¬ 
res pedras preciosas extraídas pela Companhia de Diamantes de 
Angola merecem igualmente a atenção da comitiva real. 

No dia seguinte, o Diário de Notícias faz manchete com os comentá- 
ros ouvidos: “Como ha sido hecho esto en tan poco tiempo? solo por 
un milagro”, terá exclamado o rei de Espanha perante o pavilhão 
português. “Una rara preciosidad”, terá retorquido a rainha. “La 
paloma de la Exposición”, concluiria, no entender da imprensa, o 
povo sevilhano. 

Perante a descrição da presença portuguesa na Exposição de 
Sevilha, não espanta o melindre do cônsul português na cidade cata¬ 
lã aquando da inauguração desta exposição: “A secção industrial 
(portuguesa) está instalada no Palácio Meridional. O concurso de 
Portugal foi organizado pelo Consulado de Portugal em Barcelona e 
pela Câmara de Comércio Portuguesa em Barcelona, sendo de sentir 
que o esforço feito por estas da entidades não tivesse sido secundado 
mais eficazmente pela Industria e Comércio Portugueses, ainda que 
tenham concorrido à Exposição 162 expositores, nas diferentes sec¬ 
ções, apresentando: pratas artísticas, cutelariá\ tecidos em geral, cal¬ 
çado de luxo, tapetes, artigos de malha, cortiças, conservas, artigos 
de viagem, artes gráficas, porcelanas, quinquilharia, chapéus, 
vinhos, licores, azeites, instrumentos de música, mármores, cerâmica 
e vários outros artigos. 

A parte artística está exposta no Palácio de Arte Moderna e está 
composta por quadros e bronzes de artistas de renome tais como 
Columbano, Carlos Reis, António Carneiro, João Vaz, Gameiro, etc. 
Tanto as artes como a indústria portuguesa destacam-se pela sua per¬ 
feição”, resumia entristecidamente o cônsul Fernando Abecassis em 
relatório enviado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e ao 
ministro do Comércio e Comunicações no dia 23 de Outubro de 1929. 
A pobreza da presença portuguesa na exposição de Barcelona radica, 
afinal, numa opção política mais profunda. E que enquanto a exposi¬ 
ção de Barcelona se virava de forma clara para a Europa e para o 
mundo industrializado, já a de Sevilha contemplava uma opção mais 
colonialista de África e das Américas. E a escolha portuguesa já 
estava historicamente feita. Embora tardia, se se comparar com a de 
outros países europeus com colónias. 

Foi após a independência do Brasil, no regime liberal de D. Maria II, 
que Portugal começou a dar mais importância às suas colónias afri- 


47 




Outro aspecto da Exposição. Fontes, escadarias, avenidas tornavam o recinto 
num lugar privilegiado de lazer e convívio. 

canas de Angola e Moçambique. Em 1836 foi abolida a escravatura 
em todas as colónias portuguesas e foram pela primeira vez nomea¬ 
dos governadores civis para os territórios ultramarinos. Nessa data, a 
afirmação das fronteiras de Angola e Moçambique era ainda um pro¬ 
cesso em curso e só no final do século, com o crescente interesse de 
outros países da Europa nos seus territórios ultramarinos — nomeada¬ 
mente a Bélgica e a França —, foi considerado necessário levar em 
conta a defesa das colónias africanas. 

Capelo, Ivens e Serpa Pinto são enviados em 1877 atravessar o conti¬ 
nente africano, numa iniciativa resultante das primeiras preocupa¬ 
ções hegemónicas do governo português em relação a África. Os 
primeiros descem até ao Congo, Serpa Pinto chega a Victoria Falis, 
Durban e Pretória. 

A pretensão portuguesa de unir Angola a Moçambique e o despique 
sobre o Congo são decididos na Conferência de Berlim de 1884-85. 
Os critérios aqui definidos baseiam-se na ocupação efectiva e não 


48 
















nos direitos de descoberta — que Portugal evocava sobre o Norte do 
Congo, bem como no Tratado Anglo-Português. África vai tornar-se o 
elo mais fraco na cadeia da história dos mais velhos aliados, uma vez 
que tanto a Inglaterra como Portugal têm pretensões territoriais e as 
zonas de interesse se interceptam. A segunda expedição de Serpa 
Pinto mostra claramente a vontade de unir, de Angola a 
Moçambique, as duas costas, mas a Inglaterra reage com o ultimato 
de 1890 e Portugal tem que ceder. Ficam, de qualquer forma, para 
Portugal, as vastas áreas de Angola e Moçambique, que juntas 
somam vinte vezes a dimensão de Portugal, Cabo Verde, Guiné, 
índia, Macau e Timor. 

A primeira semana do reinado de D. Carlos I é ensombrada pelo ulti¬ 
mato inglês e pela declaração da Republica no Brasil. Seguem-se tem¬ 
pos de intriga e de agravamento no estado crónico das finanças 
portuguesas, até que em 1891 se dá o primeiro levantamento republi¬ 
cano no Porto. O resultado é a ilegalização do Partido Republicano e o 
esmagar da revolta. 


49 






























Nos últimos anos da monarquia, o estado de bancarrota das finanças 
públicas é de tal monta que, para equilibrar o orçamento, teriam que 
ser suprimidos todos os serviços públicos, a marinha e a armada. No 
início da última década um ministro competente, Ferreira Dias, con¬ 
segue mitigar o problema do défice e recuperar um pouco a imagem 
das finanças portuguesas no exterior, para efeitos cie concessão de 
créditos. Mas quando Ferreira Dias tenta aumentar a carga fiscal é 
obrigado a deixar o cargo. 

A partir de determinada altura, a Inglaterra volta a ser o parceiro 
português na ajuda financeira. 0 reatar das relações amistosas entre 
os dois países deveu algo à visita que D. Carlos I realizou em 1897 a 
Londres, e também às pretensões alemãs em África, que levam os 
dois países da Aliança a reafirmar os princípios do texto de 1661, no 
qual a Inglaterra se comprometia a defender os interesses ultramari¬ 
nos portugueses como se fossem seus. 

No início do século a política colonial portuguesa é reforçada pelo 
surgimento de João Franco, dissidente e promotor do liberalismo 
regenerador, mas tanto os franquistas como os republicanos são bani¬ 
dos das eleições. 

As severas medidas tomadas contra os movimentos revoltosos, as 
deportações sem julgamento para Timor e as imposições de carácter 
ditatorial têm como resultado um reforço dos movimentos revoltosos 
que, em última análise, atingem também a Coroa. E neste contexto 
que surgem os movimentos anticlericais no Porto, as revoltas de 
estudantes em Coimbra e os tumultos nas Cortes, apenas interrompi¬ 
dos pela visita a Lisboa de Edurdo VII, em 1903. 

Em 1906, D. Carlos chama João Franco para o poder. A ditadura de 
João Franco vai mais longe do que tudo o que fora feito antes e em 

1907, por decreto, passa por cima da Constituição e dissolve as 
Cortes. Depressa os principais munícipes portugueses, descontentes, 
são substituídos por comissões administrativas. Muitos jornais são 
suprimidos, surgem novos crimes de ofensa política e são criados 
novos tribunais para os julgar. 

A seguir a uma tentativa falhada de golpe de Estado em Janeiro de 

1908, Franco decreta a lei marcial em Lisboa e consegue do rei a 
revalidação do decreto que permitia a deportação de inimigos políti¬ 
cos para Timor. No dia seguinte, o rei e o seu filho primogénito são 
assassinados e o segundo filho, Manuel, é ferido. João Franco é des¬ 
tituído pelo novo rei, e após uma tentativa de virar o exército a seu 
favor, refugia-se em Espanha. 

A maior dificuldade que D. Manuel II vai encontrar, nos seus dezoito 


50 



anos inexperientes a nível político, é a impossibilidade de promover 
nina política de conciliação. Ele restaura a liberdade de imprensa e 
de associação, mas os republicanos conquistam cada dia mais adep¬ 
tos. Operando através de orna sociedade secreta, a Carbonária, vão- 
-se infiltrando nas Forças Armadas enquanto o rei, em dois anos, 
ensaia a governação com seis executivos diferentes. 

As eleições de Agosto de 1910 dão aos republicanos um forte peso 
político e em 5 de Outubro de 1910 o regime republicano toma conta 
do país sem oposição de monta. D. Manuel II refugia-se em 
Inglaterra e a monarquia baixa os braços. 

0 governo provisório de Teófilo Braga decretou a separação da Igreja 
e do Estado, seciilarizou a educação, aboliu a Faculdade de Teologia 
de Coimbra e criou novas universidades em Lisboa e no Porto. 

A Constituição de 1911 garantia liberdade de expressão, de associa¬ 
ção, de crença. O parlamento passava a ser composto por uma câma¬ 
ra de deputados, eleitos por três anos, e um senado, eleito por seis 
anos. O parlamento resultante das eleições não poderia ser dissolvi¬ 
do nem pelo presidente da Republica. O sufrágio universal cingia-se 
aos cidadãos maiores de vinte e um anos, que soubessem ler e escre¬ 
ver e fossem chefes de família. 

O primeiro governo constitucional da República durou dois meses. 
As maiores ameaças ao regime provinham das greves gerais constan¬ 
tes e dos atentados bombistas, mais do que do partido monárquico, 
entretanto reforçado com o pacto feito em 1912 entre D. Manuel e o 
seu primo D. Miguel. 

Em 1914, quando rebenta a Primeira Guerra Mundial, Portugal reve¬ 
la claramente a sua posição quanto aos territórios africanos. 
Anunciando que se mantém neutral, envia tropas para Angola e 
Moçambique, onde as incursões germânicas começam a dar-se. E o 
factor africano foi decisivo para o parlamento autorizar o governo a 
entrar na guerra. 

Em Março de 1916, devido à retenção em mar português de vasos de 
guerra germânicos, a Alemanha declarou guerra a Portugal e no início 
de 1917 uma força de 25 mil homens embarcou para a França e para 
a Flandres, onde lutaram de forma valorosa na Batalha de La Lys. 

A situação interna continuou tumultuosa e em Dezembro de 1917 um 
novo golpe militar depôs o presidente e colocou no seu lugar o chefe 
dos militares, Sidónio Pais, que iniciou a Nova República. 

O novo presidente amaciou a tensão existente entre a República 
Nova e a Igreja e foi sob os seus auspícios que as relações do Estado 
português com o Vaticano foram reatadas, abrindo portas à nova 


51 



Concordata de 1940. Mas Sidónio Pais seria assassinado em 
Dezembro de 1918. 

De 1919 a 1921 sucederam-se no governo dezasseis elencos diferen¬ 
tes, com consequências graves para o estado precário das íinanças 
públicas do país e para o valor do escudo, qne caiu a pique. Em 
1921, um novo golpe acaba no assassinato do primeiro-ministro 
António Granjo e de cabeças de cartaz da extrema-direita do republi¬ 
canismo. 

Este período tumultuoso só terminou no movimento cie 28 de Maio de 
1926, que instaurou a ditadura em Portugal, mais tarde chamada 
Estado Novo, e que se propunha restabelecer a ordem. Essa ordem 
só seria realmente conseguida depois de 1931, data até à qual se 
deram alguns levantamentos, mas nessa altura Carmona já se decla¬ 
rara a si próprio primeiro-ministro e presidente interino, único sobre¬ 
vivente do triunvirato que inicialmente conduzira o movimento. 

Em 1928, o governo foi buscar para a pasta das Finanças um profes¬ 
sor de Coimbra que viria a ficar no poder durante quarenta anos. 
Nessa altura, Portugal negociara um empréstimo externo com a 
Inglaterra cujas condições foram consideradas atentatórias da sobe¬ 
rania nacional e que, por esse motivo, acabou por ser recusado. 
Oliveira Salazar impôs um orçamento restritivo baseado na premissa 
de que as despesas do Estado não deveriam ultrapassar as receitas. 
Assim sendo, chamou a si a função de adelgaçar os orçamentos dos 
vários ministérios e em 1928-29 o orçamento do Estado português, 
pela primeira vez em setenta e cinco anos, foi equilibrado. Tal como 
seria daí em diante durante o Estado Novo. 

Apesar de inicialmente ter tido alguma contestação pela sua rígida 
política nas contas públicas, o professor de Coimbra gozava de gran¬ 
de respeito no meio académico. À medida que as suas decisões mos¬ 
travam resultados — gerir o orçamento do Estado como uma dona de 
casa gere o orçamento familiar - a sua popularidade foi crescendo. 
A somar a esse, outros factores na sua idiossincrasia ajudaram à 
popularidade deste professor. Juntava às virtudes técnicas um cato¬ 
licismo firme — chegara a estudar para padre —, uma frugalidade na 
vida pessoal e tinha uma aura de asceta. 

As notícias de política interna nos jornais de 1929 mostram bem o 
carácter ascensional da fama de Oliveira Salazar - todas as iniciati¬ 
vas das Finanças tiveram lugar de primeira página, e mesmo as que 
diziam respeito ao ministro, como estado de saúde, visitas oficiais, 
etc., correspondiam a notas na primeira folha dos diários. Salazar 
tornar-se-ia primeiro-ministro em 1932 e permaneceria à frente de 


52 




Perspectiva de uma das avenidas do recinto. Esta pequena cidade arrastava curiosos 
a descobrir aspectos culturais de um pais em transformação. 

sucessivos governos como presidente do Conselho até 1968, data em 
que adoeceu irreversivelmente. 

Na viragem para o século XX, Paris continuava a ser a Meca dos artis¬ 
tas portugueses, que aí lutavam contra a herança inerte do naturalismo 
do século anterior. Ou assumiam-na, em formas por vezes patéticas. As 
correntes modernistas viriam a entrar em força em Portugal nos anos 
30 e a dominar as artes até final dos anos 40. Até isso acontecer, as 
décadas de 10 e 20 são marcadas pelo perdurar da herança do século 
anterior e pelos primeiros arrojos de diferença, surgindo na cena das 
artes portuguesa alguns nomes que mais tarde farão escola. 

Em Portugal, como descreve José-Augusto França, o modernismo 
entrou pela mão do humorismo na I Exposição dos Humoristas 
Portugueses, organizada pelo filho de Bordalo Pinheiro e que se rea¬ 
lizou em Maio de 1912 em Lisboa. Aí expuseram Almada Negreiros, 
Jorge Barradas, Cristiano Cruz e o escultor Ernesto do Canto, eviden¬ 
ciando evidentes influências alemãs e francesas. 

Em 1913, Almada Negreiros faz uma exposição individual, que 
Fernando Pessoa destaca em A Águia , e nos anos seguintes o centro 
das exposições dos modernistas muda-se para o Porto, abarcando 
agora Abel Salazar e A. Basto. O termo modernismo era aqui usado 
com pouca parcimónia, sugerindo sobretudo um mundanismo. 
O III Salão dos Humoristas, que se realiza em 1920, sintetiza as 
linhas gerais desta leva de artistas na qual se destaca uma revitali¬ 
zação na produção de cartazes protagonizada por Almada Negreiros, 
António Soares e Armando Basto. 


53 

















A primeira vaga de futurismo é entretanto assumida por Santa-Rita 
Pintor, e continuada na revista Orplieu , de Mário de Sá-Carneiro. 0 
futurismo começou por ser polémico a nível das suas interpretações 
políticas, sobretudo nas prosas de Fernando Pessoa e Álvaro de 
Campos, Raul Leal e Almada Negreiros - este com o manifesto 
anti-Dantas. A seguir ao suicídio de Sá-Carneiro em Paris, José 
Pacheko abre uma galeria em Lisboa apelidada de Salão dos 
Futuristas e cujo momento alto é a exposição de Amadeo de Souza- 
-Cardoso, que apesar de reclamar para si uma diversidade de estilos 
— entre os quais o cubismo — logo foi rotulado de futurista. Almada 
Negreiros é o grande paladino público de Souza-Cardoso, que des¬ 
creve como sendo “a primeira descoberta de Portugal na .Europa do 
século XX”. 

Em Abril de 1917, Almada Negreiros tem oportunidade de enunciar 
os princípios do futurismo ao apresentar publicamente o seu 
“Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”, con¬ 
tinuado depois na única edição da revista Portugal Futurista , cujo 
mentor era Santa-Rita Pintor. 

0 “Mandato de Despejo aos Mandarins da Europa”, de Álvaro de 
Campos, publicado nesta revista, é considerado por José-Augusto 
França o texto fundamental do futurismo português. Nele o naciona¬ 
lismo é fundido de forma feliz com o futurismo num manifesto final 
de “Voltar costas à Europa”, “saudando abstractamente o infinito”. 
Este manifesto será completado no final da década pelo ensaio do 
heterónimo de Pessoa “Para Uma Estética Não Aristotélica”, publi¬ 
cado na revista Athena. 

0 final dos anos 20 encerra o ciclo da primeira geração de modernis¬ 
tas. Morrem entretanto em 1918 Amadeo de Souza-Cardoso e Santa- 
-Rita Pintor; Almada Negreiros, desiludido, prepara-se para partir 
para Paris. A influência da escola francesa continua a ser dominante 
no modernismo português dos anos 30. Até final desta década desta¬ 
cam-se nas artes nacionais nomes como o do pintor Eduardo Viana, 
que já expusera em 1911 e que aprofunda o impressionismo e o 
cubismo, Abel Manta e Dórdio Gomes. 

Muitos outros artistas haveriam de marcar as novas correntes estéti¬ 
cas nas décadas de 30 e de 40; outros, já referidos, haveriam de ser 
consagrados em Portugal no período posterior ao da Exposição 
Internacional de Barcelona. É o caso de Almada Negreiros, cuja 
deambulação entre Lisboa e Paris é curto-circuitada por uma estada 
em Madrid. 

Antes da sua segunda viagem à capital francesa, Almada escreve 


54 



(mas não publica) o romance Nome de Guerra e fornece o café 
A Brasileira do Chiado com dois quadros seus, no que constitui uma 
espécie de iniciação ao estatuto de pintor reconhecido. Mas é na 
capital espanhola que Almada Negreiros faz a sua primeira grande 
exposição de desenhos, decora cinemas e zonas da Cidade 
Universitária. Almada ficaria em Madrid até 1932, data em que 
regressa a Portugal e inicia uma carreira polémica e de sucesso como 
artista multifacetado de forte pendor nacionalista. 

0 pintor António Soares foi um dos humoristas do início do século 
que partilha a decoração das paredes do café A Brasileira e cio clube 
Bristol com Almada. Ilustrador da moda, Soares inclinar-se-ia para o 
decorativismo, tal como Jorge Barradas que, com um percurso seme¬ 
lhante, dedicar-se-ia mais tarde à cerâmica. Dentro dos humoristas, 
destacam-se ainda as figuras de Emmerico Nunes e Stuart 
Carvalhais, ilustradores populares que vão também marcar presença 
nas encomendas de A Brasileira do Chiado e Bristol. 

No campo da escultura viria a distinguir-se em 1928 Francisco 
Franco, autor do monumento a Gonçalves Zarco, que se consagraria 
pelo seu rigor formal como o correspondente na estatuária ao traba¬ 
lho pictórico de Nuno Gonçalves. 

Na arquitectura, o modernismo começaria a ser visível já nos anos 
30, mas é possível encontrar alguma obra em final da década de 20 
dos principais obreiros desta transformação: Cristino da Silva 
(Capitólio, liceu de Beja, moradia de Natal da revista Eva\ Pardal 
Monteiro (Instituto Superior Técnico, Instituto Nacional de 
Estatística) e Carlos Ramos (Pavilhão do Rádio), numa linha raciona- 
lista inspirada por Le Corbusier e Gropius. 

No campo das publicações, além das já referidas, merece destaque 
a revista de José Pacheko, Contemporânea , lançada em 1922 e de 
gosto assumidamente modernista, com uma prática acentuada 
de mundanismo e nacionalismo. De resto, no panorama da imprensa 
dos anos 20 abriam as portas aos modernistas apenas o Diário de 
Lisboa e, ocasionalmente, o ABC , a Ilustração , o Magazine Bertrand 
e, a partir de 1926, 0 Sempre Fixe. Nas publicações literárias conta¬ 
vam com colaboradores da nova vaga a Seara. Nova , O Diabo 
e a Presença. 

Foi em 1924 que A Brasileira do Chiado encomendou onze telas aos 
modernistas de Lisboa: Almada, Viana, Soares, Barradas, Stuart e 
Pacheko, quadros que manteria até 1970. As obras foram expostas 
pela primeira vez no Salão de Outono de 1925, iniciativa de Viana 
que foi de grande sucesso e que reuniu dezenas de artistas. Apesar 


55 



de inúmeras tentativas de dar continuidade a esta iniciativa, só cinco 
anos depois um salão de modernistas viria a atingir o sucesso do 
Salão de Outono. 

Nos anos 30 e 40 o modernismo português consegue impor-se ao 
nível do gosto oficial pela mão de António Ferro que, por sorte, é um 
dos cicerones disponíveis para a Exposição Internacional de 
Barcelona. 


SOLENIDADES DOS PRIMEIROS DIAS 

H exposição de Barcelona foi inaugurada com a pompa e a solenida¬ 
de previstas. Na altura, nada indiciava os acontecimentos que se 
precipitariam durante o seu tempo de vida, e que faria dela um pro¬ 
duto híbrido. Internacional aquando da abertura, mais tarde nacional 
por força da inércia e da ultrapassagem dos prazos estipulados... Filha 
do génio catalão mas também da vontade do ditador, de que ficaria 
óifã antes da data de encerramento prevista... Orgulhosa do capitalis¬ 
mo de mãos dadas com a indústria, e pilhada depois da queda da 
Bolsa de Nova Iorque pelos industriais necessitados de reaver os bens 
mostrados... Tantos anos adiada pela adversidade, para acabar adiada 
ela própria pela falta de vontade de lhe dar um fim... 

Os Portugueses puderam seguir as peripécias da inauguração pela 
pena de António Ferro. Ele próprio mais tarde um extraordinário 
fazedor de propaganda, eficaz porque conhecedor e talentoso. Na 
altura o mais famoso globe-trotter do jornalismo português, António 
Ferro chegou a Barcelona alguns dias antes da inauguração da expo¬ 
sição. A crónica impressionista, de escrita fácil, do que viu, abria a 
manchete do Diário de Notícias de 21 de Maio de 1929. 

Nesta época, António Ferro não tinha ainda iniciado a série de entre¬ 
vistas a Salazar que o lançariam como o motor do marketing político 
do Estado Novo (seria director do Secretariado da Propaganda 
Nacional e da Secretaria Nacional da Informação e Turismo entre 
1933 e 1950) mas afirmara-se já como escritor modernista, o benja¬ 
mim do grupo do Orpheu , como conferencista provocador e como 
catalisador de alguns grupos de dinamização cultural. Para lá da sua 
capacidade criativa como escritor e dramaturgo e do curso de Direito 
que quase terminou, António Ferro cedera na época da sua ida a 
Barcelona a uma paixão maior: o jornalismo internacional. 

A exposição de Barcelona parece ter impressionado realmente António 
Ferro. Não tanto por se fazer fé no expediente narrativo mas porque 


56 




mais tarde algumas das construções que refere nesta crónica foram por 
si poslas em prática, enquanto secretário da Informação e Turismo: o 
concurso “A aldeia mais portuguesa de Portugal” e a fundação do 
Museu de Arte Popular, por exemplo. E quem sabe se o facto de ter 
sido secretário-geral da Exposição do Mundo Português e dos 
Centenários de 1940 não nasceu da exaltação que se cita e que surgia 
sob o título: “No Parque de Montjuic - A exposição de Barcelona e o 
milagre da Catalunha”. “Barcelona é a cidade infinita de Espanha. 
Tudo lhe serve de pretexto para aumentar, para subir, para crescer. 
Está constantemente em obras, obras que não são palavras, obras em 


A abertura das portas da Exposição. Na presença real e das classes dirigentes 
consumava-se, perante milhares de pessoas, o milagre da Catalunha. 

cimento armado, em mármore, em ferro, obras que saem das suas fábri¬ 
cas, fumo que sai das chaminés e não se perde... sempre em obras, 
sempre... Ontem, hoje, amanhã... Uma orquestração permanente de 
picaretas, roldanas, guindastes e martelos. Todos os dias uma nova estᬠ
tua, uma nova praça, uma nova ponle, um novo arranha-céus... Não há 
produção literária que chegue a esta produção vital, a estes volumes 
que surgem, diariamente, nas estantes das ruas... A Exposição de 
Barcelona é apenas uma erupção mais violenta desta ânsia de infinito, 
deste vulcão nervoso da Catalunha. A exposição de Barcelona é uma 
cidade sonhada por outra cidade, uma brincadeira de gigantes...” 


57 









Os hóteis cie Barcelona destinados aos turistas da exposição obede¬ 
cem a nina fria lógica numérica. O Hotel número 1 é o hotel rico, o 
número 2 é em princípio exclusivo para senhoras... António Ferro 
fica instalado no Hotel número 3 onde se sente arrumado como qne 
numa gaveta. Na janela do cpiarto 210, com vista para a Praça de 
Espanha, os ritmos de Barcelona não pedem licença para entrar: 44 A 
sinfonia de sempre, a sinfonia da colmeia: a ânsia do terminar e a 
certeza do nunca mais terminar... Depois de uma praça outra praça, 
depois de uma rua outra rua... A exposição de Barcelona não é nem 
quer ser um teatro de papel: é o monumento que Barcelona está 
levantando a si própria.” 

E Ferro não resiste à comparação com Sevilha, por essas alturas tam¬ 
bém em festa de exposição: 44 A exposição de Sevilha, pelas atitudes 
que lhe conheço, deve ser uma exposição mulher, algo de cigana e 
bailadeira, corpo e imaginação de Xehrazade, romantismo e volúpia, 
o banco dos namorados e o banho da sultana. A exposição de 
Barcelona, ao contrário, é uma exposição máscula, severa, america¬ 
nizada, os doze trabalhos de Hércules. A Praça da Catalunha tem um 
leque nas mãos, o leque da velha Praça de Touros. Chama-se ‘Arenas 
de Barcelona’, perfume da Andaluzia que chegou ali sem se saber 
porquê...” 

A fonte da Praça de Espanha, na altura ainda ladeada de tapumes 
deixando perceber a sua monumentalidade, não podia deixar de ser 
assustadora para o escriba. 44 Ao centro da Praça de Espanha, uma 
fonte monumental que eu tenho medo de ver acabada. Gosto dela tal 
como está, meia coberta por tapumes, defendida ou atacada por 
andaimes altos, torres de madeira que evocam as guerras primitivas, 
os complicados aparelhos medievais... Tenho receio de certas inge¬ 
nuidades, de certos meninos bisbilhoteiros, traquinas, que se adivi¬ 
nham através da armação, das vigas, do vai e vem das máquinas... 
O que irá dar à luz aquele bloco entrapado, emparedado... Enfim... 
Ninguém diga da água da fonte não beberei... E possível que a fonte - 
e quem sabe se será uma fonte - me deslumbre e me convença, 
depois de acabada, tal como o Palácio Nacional, verdadeiro estandar¬ 
te da exposição, direi melhor, Sua Excelência El-Rei do Parque de 
Montjuic.” 

Suficienlemente conhecedor do modernismo e homem de grande cul¬ 
tura no campo artístico, António Ferro não consegue mais do que 
uma admiração condescendente pelo esforço que representa o 
Palácio Nacional. Palácio cuja função é evidente. 44 Não há que dis¬ 
cutir estilos, orientações, não há que meditar sobre pormenores de 





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" O Palácio Nacional é o maestro rígido, severo, que agitará, amanhã, como batuta, 
a bandeira de Espanha..." 


bom ou de mau gosto, há que ficar esmagado sob o peso da obra 
monumental, única, o verdadeiro dó de peito de Barcelona. Aquilo é 
enorme como esforço, como ânsia, como ascensão. A harmonia 
suprema dos contrastes: cúpulas, torres, minaretes, janelas, arcarias, 
portas, arquitraves, tímpanos - um céu de arquitectura sobre 
Barcelona. Em frente do panorama, da cidade orquestrada pelo tra¬ 
balho quotidiano, febril, o Palácio Nacional é o maestro rígido, seve¬ 
ro, que agitará, amanhã, como batuta, a bandeira de Espanha...” 

O maestro de que fala António Feno encerra os símbolos máximos da 
grandeza da exposição. Entrar no Palácio Nacional é essencial para se 
perceber os sinais do orgulho de Espanha. São mármores, escadarias 
reais, colunas com caprichos, parquetes espelhados, grades de ferros 
que são rendas de bilros em mãos de gigantes, tapeçarias da fábrica do 
Prado, panos de Airás, damascos, tapetes enormes, paramentos. A sala 
principal, concebida para albergar a cerimónia inaugural da exposição, 
anuncia-se com capacidade para 15 mil pessoas. Decorada para um 
destino real, com armas bordadas de todas as cidades espanholas à 
volta das galerias. Armas de Espanha bordadas a oiro em veludo ver¬ 
melho, emprestadas pela casa da Granja de Segóvia. Galerias, brasões, 
escudos, um órgão preparado para tocar na hora do início da festa, a da 
largada das pombas brancas. A rivalizar com a sala do trono, a sala 
museu ostenta armaduras, quadros de Pauto ja e Sanchez Coello, faian¬ 
ças de Tala vera, iluminuras, o escudo de Portugal, punhais e gravuras... 


60 











Seguindo a sensibilidade deste cicerone, a sensação ao deixar o 
Palácio Nacional é a de milionário fatigado. Logo recomposto pela 
frescura do Pueblo Espanhol, por onde se entra pela porta cie Ávila. 
“Lá dentro é o maravilhoso tapete de retalhos, uma rua fresca da 
Andaluzia, uma dessas ruas que dão apertos de mãos, mãos entrela¬ 
çadas, uma casinha galega aconchegada como uma boina, a 
Esclavitud de SanPIago, certas portas medievais curvas como 
sobrancelhas, janelas românticas, varandas gradeadas, vasos de cra¬ 
vos, a loja do ferreiro com a sua enseigne recortada e abelhuda, a 
Barberia Arcos de Pas , audaciosa como laçadas de gaúcho, uma venta 
sevilhana com os seus mosaicos e a sua majestosa cabeça de toiro, 
um cruzeiro galego coroado pela dor de Jesus, igrejinhas, farrapos de 
cátedra... E, finalmente, a Plaza Mayor, ao centro do Pueblo, com as 
suas amostras que não se zangam, que não chocam, casas diferentes, 
rostos diversos, olhos azuis, castanhos ou cinzentos, mas de mãos 
dadas e de almas dadas. 0 Pueblo Espanhol da exposição, catálogo 
vivo de uma pátria, justifica uma viagem a Barcelona. Maravilhoso 
estúdio para uma série de filmes espanhóis. Entrar no Pueblo é 



Ainda hoje é esta a imagem que recolhe a memória de 1929. A força, a criatividade 
e o empenho catalães espelham-se na imponência do Palácio Nacional. 


folhear a Espanha, é entrar, devagarinho, na alma de uma raça...” 

As impressões não têm fim, como Barcelona não tem fim. “Continua! 
Continua! é o grito das picaretas, dos martelos, dos guindastes, das 
roldanas, das máquinas que britam, das máquinas que asfaltam, dos 


61 





Vista da avenida principal do recinto. Por aqui entraram milhares de pessoas 
à descoberta da alma espanhola. 


automóveis, o grilo de Barcelona, a ordem suprema da Catalunha!...” 
Relatam as crónicas que eram cerca de 500 mil os presentes na 
manhã da inauguração da exposição, uma multidão multicolor aper¬ 
tada na praça em frente ao Palácio Nacional. Espanhóis, na sua 
maioria, com salpicos de grupos de outros países da Europa, enga¬ 
nando a espera com saudações, brados e palmas aos voos rasantes 
dos zepelins e aviões que, de vez em quando, sobrevoavam a praça, 
desenhando arabescos sobre Montjuic. Os relatos cie portugueses 
descortinam no meio da confusão uma ou outra bandeira portuguesa. 
Certamente entre bandeiras de outros países representados, que na 


62 















sua maioria contaram com representações oficiais no primeiro clia. 
Um pouco antes das onze horas as personalidades que aguardavam a 
chegada do rei e da sua comitiva começaram a alinhar-se segundo as 
regras do protocolo. À (rente, o general Primo de Rivera e os grandes 
de Espanha. E também o corpo diplomático estrangeiro e o alto 
clero. Académicos e funcionários de lodos os organismos oficiais de 
Barcelona em linhas paralelas, alargando o grupo inicial. Ladeando o 
caminho a percorrer por D. Afonso XIII e sua comitiva colocou-se a 
guarda de honra. Que nesta ocasião não contava só com os oficiais 
especiais cio rei mas também os do município e de delegações 
estrangeiras. 


63 






0 grupo oficial de Portugal incluiu uma representação de alto nível: 
o recém-nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros português, 
Quintão Meireles. Juntamente com o embaixador de Portugal em 
Espanha, Quintão Meireles encabeçou o grupo de oficiais do cruza¬ 
dor Vasco da Gama ., expressamente enviado de Lisboa para esta sole¬ 
nidade e chegado na véspera ao porto da cidade. Perfilados, 
aguardavam também a chegada de Afonso XIII, que ficara hospeda¬ 
do no Palácio de Pedralbes. Na ficção de Eduardo Mendonza que 
reconstitui este momento, é um rei um pouco irritado e com uma per¬ 
sistente desconfiança dos Catalães que se dirige para a cerimónia: 
“Sua Majestade D. Afonso XIII ia calçando as luvas pelos salões e 
corredores do Palácio de Pedralbes, em direcção a cuja saída um 
camarista o conduzia. Que disparate!, pensava, um palácio tão gran¬ 
de para dormirmos um par de noites. As passadas que dava obriga¬ 
vam o séquito a adoptar um trote curto; só a rainha, que era inglesa, 
podia sustentar o seu passo sem esforço aparente, inclusivamente ir 
falando com ele enquanto andavam. Já reparaste? perguntava-lhe 
sem afrouxar a marcha, esta é a segunda Exposição Universal que 
inauguro em Barcelona. Na anterior era um fedelho de dois anitos 
apenas; claro que não me lembro de coisíssima nenhuma, mas a 
minha mãe costumava contar-me estas coisas. As recordações da sua 
infância eram sempre recordações oficiais: o pai, D. Afonso XII, 
tinha morrido mesmo antes de ele nascer. Já nasci sendo rei de 
Espanha, costumava dizer. No momento do parto as parteiras e as 
enfermeiras tinham feito a vénia antes de lhe açoitarem as nádegas 
para lhe provocarem o primeiro choro. Isso tinha-o feito ficar muito 
ligado à mãe desde o princípio. Agora ela acabava de morrer. Aos 
quarenta e quatro anos todas as coisas acontecem já pela segunda 
vez, no mínimo, disse, ao subir para a berlinda blindada que havia 
de conduzi-lo a Montjuic.” 

As palavras inaugurais do marquês de Fronda, director-geral da 
exposição e do alcaide de Barcelona não chegaram a ser ouvidas fora 
do salão do palácio. A acreditar em versões que noutros campos se 
mostraram moderadas, as palavras do general Primo de Rivera sofre¬ 
ram de maiores contrariedades do que as acústicas, uma vez que a 
multidão aproveitou o anonimato para lhe lançar algumas vaias, con¬ 
trariadas de imediato por fortes aplausos. Os relatos da época dão 
conta de forte salva de palmas. Descrições posteriores da mesma 
cena referem uma vaia em uníssono. 0 rei recebeu o corpo diplomᬠ
tico para os cumprimentos da praxe, após o que assomou à varanda e 
declarou inaugurada a exposição. Foi o sinal para a anunciada lar- 


64 



gada de 40 mil pombas. No meio de um burburinho geral, milhares 
de asas brancas voaram soltas sobre Montjuic, seguidas pelos olhos 
da multidão. Até que um rumor de água obrigou as cabeças a baixar 
e concentrou as exclamações de espanto nas fontes, espalhadas por 
todo o recinto, que iniciaram o seu jorro. A seguir à água ouviram-se 
as sirenas, os morteiros, o hino de início de actuação da banda. De 
espanto em espanto, a multidão ficou suspensa por um instante. Mas 
logo ganhou fôlego e invadiu as ruas e praças. 

Nessa noite os reis de Espanha ofereceram um banquete para cerca 
de mil pessoas. Desse banquete, António Ferro guardou uma memó¬ 
ria viva que dias depois publicaria no Diário de Notícias numa sabo¬ 
rosa crónica de costumes: “Saboreio essa visão moderna, a visão 



duma rainha a fumar diante de mil pessoas. Nem a mais ligeira alte¬ 
ração no seu perfil, na sua majestosa imobilidade. Dir-se-ia que está 
sonhando que fuma um cigarro e que nós vemos o sonho à transpa¬ 
rência dos seus olhos. (...) Senhoras portuguesas! Sua Majestade a 
Rainha Vitória Eugênia fuma o seu cigarro de quando em quando, 
mas fuma como uma rainha e não cruza a perna... Reparem bem: 
Fumar como uma rainha é um pouco diferente de fumar como um 
homem, mesmo quando esse homem é um rei.” 

Os primeiros dias da exposição foram dedicados a diversas solenida¬ 
des. E o caso da cerimónia de bênção da cidade pelo bispo de 
Barcelona, mas também da inauguração de alguns pavilhões como o 


65 









da Bélgica, da Dinamarca, da França e da Espanha. Inauguraram-se 
ainda os estádios e realizou-se o Congresso Luso-Espanhol para o 
avanço das ciências. Quarenta professores portugueses participaram 
neste congresso. 

As contas ao tamanho de cada pavilhão, à quantidade de exposi¬ 
tores de cada país e às individualidades nacionais presentes em 
cada acto e banquete concentraram as atenções sociais durante os 
primeiros dias. No dia 26, uma semana depois da inauguração, os 
reis de Espanha visitaram a zona onde se expõem as peças 
portuguesas. 

0 ponto alto do protocolo da representação portuguesa foi um ban¬ 
quete oferecido pela Câmara de Comércio Portuguesa, durante o qual 
o ministro Quintão Meireles entregou a Cruz de Cristo ao marquês de 
Fronda. Outros países aproveitaram a primeira semana para marcar a 
sua presença. Como a França, que realizou um grandioso baile, uma 
récita de teatro lírico pela Opera de Paris e um concerto. Decorreram 
ainda nos primeiros dias um concurso hípico, provas desportivas e 
uma festa ri ja andaluza no Pueblo Espanhol. 

Mas no fim da primeira semana de festividades muito estava ainda 
por acabar no recinto da exposição. Nas ruas poeirentas e, nalguns 
casos, improvisadas, milhares de operários continuavam a trabalhar, 
contrastando este frenesi de última hora com a grandiosidade da obra 
já feita. Sete dias depois da abertura, nada se sabia ainda quanto ao 
que viriam a conter os palácios da Electricidade, do Trabalho, das 
Projecções, dos Transportes, cuja conclusão estava atrasada. 

Depois de inaugurado pelos reis de Espanha, o pavilhão da Bélgica 
voltou a encerrar para ser terminado. 0 da Alemanha, ao fim de sete 
dias de exposição, era ainda apenas uma parede de mármore. E ape¬ 
sar de ter ficado pronto a tempo, o pavilhão francês revelou-se uma 
desilusão para os intelectuais desejosos de aí respirar um pouco da 
espiritualidade que a França desses tempos evocava. Contemplava 
uma exposição de artes decorativas, perfumes, marroquinaria, moda, 
moedas e jóias Cartier. Para além de uma mostra de automóveis, a 
que não era alheio o facto do senhor Citroen ser director do comité 
francês. 

Nada disso, no entanto, seria suficiente para desviar a atenção do 
visitante dos jogos de água, luz e cor, sem dúvida a realização mais 
bem conseguida da exposição de Barcelona. Aos quais António Ferro 
também não resistiu. “À entrada uma avenida de lâmpadas gigantes¬ 
cas, troncos de luz que não são varinhas mas varas de condão. 
Repuxos aviadores que se elevam e morrem, cascatas que são peças 


66 




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de seda que a mão de um gigante desdobrará sem repouso, fontes 
que são poetisas e rimam com outras fontes... jogos de água que são 
jogos de meninas de cabelos caídos a saltar à corda.” 

Mas mais que tudo, é Barcelona que merece a última homenagem 
do jornalista: “Subo até aos jardins de Miramar: o grande olhar, o 
olhar definitivo sobre Barcelona. 0 casario torvo da metrópole 
fabril. Milhares e milhares de telhados, as cabeças de uma infinita 
mullidão, chaminés, arranha-céus, agulhas de catedral, gestos alti¬ 
vos de Barcelona, gestos irmãos, um sorriso de um pároco, o traço 
de uma avenida, a clareira de uma praça, a alegria das mirambulas. 
Colombo que vai descobrir outro novo mundo na altura do seu 
pedestal, toda uma cidade de braços erguidos para o altar de 
Montjuic, andar aos ombros da Catalunha... Debaixo dos meus 


68 




















olhos, o porto sonegado onde estão guardados, como se fosse numa 
caixa sem tampa, os barcos estrangeiros e os barcos espanhóis 
embandeirados infantilmente. Apetece pescá-los à linha como se 
fossem peixes. Longe do grupo, noutro molhe, sozinho no seu orgu¬ 
lho, o nosso Vasco da Gama, com os seus dois canos e com o lenço 
gritante da nossa bandeira a dizer-lhe adeus... No cais, centenas de 
caixotes. Têm automóveis dentro - dizem-me. Tão pequenos me 
parecem que supus que só tinham charutos. 0 olhar perde-se 
panorama. Barcelona segue, mârcha — não sei para onde. Montjuic é 
um pormenor. Os 140 milhões de pesetas que se gastaram na expo¬ 
sição, uma insignificância. O Palácio Nacional, mais um palácio. 
O Pueblo Espanhol um brinquedo. A grande exposição de 1929 está 
diante dos meus olhos: é Barcelona.” 


69 









UM ROTEIRO SELECCIONADO 


uma exposição deste tipo faz sentido cruzar dois tipos de aborda¬ 
gem, seguindo as linhas mestras da concepção do evento. Há um 
aspecto mais geral, que se prende com o que poderemos chamar uma 
visão da floresta. Vista de fora e de longe, a exposição obriga a um 
deslumbramento dos sentidos, pretende impressionar pela grandilo¬ 
quência. Neste nível, o olhar segue a monumentalidade dos edifícios, 
a vastidão dos espaços, aceita as regras da forma, luz e cor. 0 outro 
nível, a que podemos chamar o das árvores, trata da minúcia, do 
número e da variedade. Sem que a memória se sinta tentada a reter 
tudo, mas ajudando a um sentido geral de universalidade. Mostra-se 
tudo, porque está lá tudo. E esse tudo é moderno, excitante, cientí¬ 
fico e técnico. Falamos da função formal dos espaços e do que eles 
albergam. 

0 Palácio da Agricultura é composto de dois edifícios, um pórtico 
para mostrar maquinaria agrícola e um espaço para uma exibição de 
floricultura. Trata-se de um dos espaços mais extensos da exposição. 
Está dividido em dois grupos de construções. 0 primeiro é construído 
por três corpos de edifício: o de entrada, o da exposição de viticultura, 
oliviticultura e etnológica e o da exposição de produtos agrícolas. 
0 segundo é um edifício destinado à exposição de maquinaria agríco¬ 
la. No meio do Palácio foi construída uma praça, no centro da qual 
estão instaladas as estuf as destinadas a conter plantas delicadas. 

Na secção de Agricultura têm lugar manifestações de agronomia, 
estudos da terra e das águas, mapas agrológicos e agronómicos, divi¬ 
são de terreno cultivável, classificação dos animais domésticos e 
instituições que têm por objectivo o desenvolvimento da agricultura, 
crédito agrícola, seguro agrícola, legislação, livros, memórias, esta¬ 
tísticas, explorações agrícolas, modelos de estabelecimentos rurais, 
materiais e procedimentos de veterinária e de engenharia rural, 
maquinaria agrícola, viticultura, indústrias agrícolas, adubos quími¬ 
cos, produtos agrícolas alimentícios de origem animal e vegetal, pro¬ 
dutos agrícolas não alimentícios, horticultura, arboricultura e 
floricultura, hortaliças, árvores de frutos e frutos, arbustos e flores 
para decoração, grãos e sementes, etc. Expõem neste palácio a 
Alemanha, Áustria, Checoslováquia, Espanha, EUA, França, 
Holanda, Itália, Suíça e Jugoslávia. 

0 Palácio da Arte Têxtil, que inclui mostras da Alemanha, Áustria, 
França, Itália, Suíça e Espanha, referentes a material e procedimen¬ 
tos de tecelagem, branqueamento, tinte, estampado, apresos, tecelã- 


N 


70 





gem a tecidos de algodão, linho, cânhamo, produtos de cordoaria, f ia¬ 
ção e tecidos de seda, artigos de malha, rendas, bordados, retroses, e 
máquinas para a indústria têxtil. 

0 Palácio do Vestido, mostra indústrias diversas de vestuário, mar¬ 
roquinaria, chapelaria, camisaria e lençaria, gravatas, calçado, ben¬ 
galas, chapéns-de-chiiva e de sol, botões, fivelas, peles de luxo, seda 
artificial, etc. 

0 Palácio das Indústrias Químicas mostra utensílios e aparelhos de 
laboratório destinados a ensaios industriais, material, aparelhos e 
procedimentos para a fabricação de superfosfatos, xaropes, velas 
e glicerina, para a preparação de água oxigenada, cloro, hiperclora- 
tos, sódio e outros produtos químicos extraídos de vegetais, vernizes, 
material e procedimentos para imunizar as águas de consumo, álcool 
metílico, acetona, ácido acético, material e procedimentos para a ela¬ 
boração de produtos farmacêuticos, tratamentos das matérias mine¬ 
rais próprias para a iluminação e aquecimento (hulha, petróleo, 
esquisitos, etc.), matérias e procedimentos para a elaboração de dro¬ 
gas de todas as classes, sabões, gorduras e matérias colorantes; 
explosivos, fósforos, pirotécnica; tintas, pinturas, etc. 

0 Palácio da Metalurgia, Electricidade e Força Motriz é um local 
destinado a mostras relacionadas com geração e utilização da electri¬ 
cidade. Produtos de energia eléctrica, motores, dínamos de fluido 
contínuo e alterno. Electroquímica. Pilhas, acumuladores, galvano- 
plastia, aplicação da química industrial. Iluminação eléctrica em 
todas as suas manifestações. Aplicações diversas da electricidade. 
Aquecimento por estufas, elevadores, gruas, aparelhos científicos e 
fornos eléctricos. Força motriz, produzida pelo homem e pelos ani¬ 
mais, motores de ar e água, máquina a vapor e motores térmicos de 
gás, petróleo, éter, álcool, amoníaco e outros líquidos voláteis. 
Aparelhos diversos de mecânica. Reguladores e acumuladores, rol¬ 
danas, correias, cabos de transmissão, aparelhos para medir e com¬ 
provar o rendimento das máquinas. Com a Espanha, apresenta os 
seus produtos neste palácio a Alemanha. 

0 Palácio das Artes Industriais e Decorativas expõe tudo relativo a 
mobiliário, ebanística e carpintaria artística, cerâmica, vidrarias 
artísticas, metais, ferros artísticos e bronzes, papéis pintados, corti¬ 
nados e tapetes, coiros e marroquinarias, pratarias, decoração de 
igrejas, arte litúrgica, peles, florões artificiais, ourivesaria, brinque¬ 
dos, bonecos e diferentes artigos de bazar, porcelanas e louças. 
Expõem neste palácio, além da Espanha, a Alemanha, Áustria, 
Itál ia, EUA e Suíça. 


71 



Palácio de Afonso XIII. Destinado às mostras do Japão, Finlândia e 
uma grande secção de França, onde se expõe sobretudo arquitectura. 
E lá que se encontra também a exposição da Acção Feminina de 
Barcelona. 

Palácio da Artes Gráficas. E ocupado sobretudo com salas de exposi¬ 
ções. Mostra aparelhos e máquinas empregues na litografia, tipogra¬ 
fia, impressão e calcografia, máquinas de imprimir e compor em 
preto e em cor e diferentes formas da técnica de impressão. 0 livro 
nos seus aspectos técnicos, livros antigos e modernos, colecção de 
obras, encadernação. Aplicação da fotografia às artes gráficas, repro¬ 
duções das cores por meio da fotografia, gravuras. Fotografia. Provas 
obtidas por meio da impressão tipográfica de matrizes em relevo. 
Mapas topográficos, fotogravado e cromotipia. Expõem a Alemanha, 
Áustria, Espanha, França e Itália. 



Palácio das Artes Gráficas. No seu interior uma mostra exaustiva de maquinaria 
e técnicas utilizadas na impressão, encadernação e cromotipia. 


Palácio das Projecções, com palcos e cabina de projecção de cinema, 
contém tudo o que diz respeito a fotografia e cinematografia. 
Aparelhos com ampliações e projecções e para tricromia, acessórios, 
objectivas e obturadores, lâmpadas, filtros, suportes, etc. 

Palácio das Comunicações e Transportes. Exibe o relativo a cami- 
nhos-de-ferro, material fixo e móvel. Locomotivas, carruagens para 
passageiros, carruagens-camas, carruagens-restaurantes; aquecimen¬ 
to dos comboios automático e contínuo; aparelhos de sinais nas 
linhas férreas, planos e maquetas de edifícios com destino aos servi- 


72 











ços ferroviários e carros eléctricos. Automóveis e camiões de todas 
as classes. Expõem juntamente com Espanha a Alemanha, Áustria, 
França, Itália e Suíça. 

Palácio Rainha Vitória Eugênia. E onde se albergam as representa¬ 
ções estrangeiras que não têm pavilhão próprio como a Áustria, 
Suíça, Noruega, Dinamarca, Jugoslávia, Suécia e também algumas de 
Espanha. 

Palácio de Material Desportivo. Comporta representações desporti¬ 
vas de diversas modalidades, com os respectivos regulamentos. 

O Núcleo das Artes de Espanha desenvolve-se em dois edifícios e é 
sobretudo um compêndio histórico, remontando à pré-história, pas¬ 
sando pela civilização romana, as épocas muçulmana e da reconquis¬ 
ta, os reis católicos até à actualidade, num total de cerca de 15 mil 
peças. Um dos edifícios é o Palácio Nacional, de 19 metros de altura 
e com 38 salas — o maior de todos os edifícios da exposição. 0 seu 
salão de festas tem capacidade para abrigar 20 mil pessoas e ocupa 
uma área de 5 mil metros quadrados. 

O outro edifício, chamado de Palácio da Arte Moderna, destina-se 
especialmente a pintura, desenho e escultura. A técnica da pintura e 
do desenho, instrumentos e materiais, obras e colecções, os grandes 
mestres da pintura, a técnica da escultura, materiais: barro, gesso, 
madeira, mármore, bronze e cinzéis. Obras e colecções escultóricas, 
moedas, medalhas. A escultura consoante as diferentes épocas, 
escolas e assuntos e os grandes mestres da escultura. 


73 









0 Núcleo dos Desportos. Tem como construção principal um estádio, 
com campo de jogos e capacidade para 60 mil espectadores. 
0 campo de jogos compõe-se de um campo de futebol, de râguebi e 
pistas de saltos e de lançamentos, bem como pistas para corridas. Há 
ainda campos de ténis, boxe, esgrima e ginástica, uma piscina para 
jogos aquáticos e pavilhões de clubes desportivos. 

No Pavilhão das Missões o objectivo é dar a conhecer a obra dos 
missionários espanhóis ao longo da história, através de textos, repre¬ 
sentações gráficas e em diversos congressos que se realizam neste 
espaço. As salas do edifício mostram imagens sagradas, quadros de 
santos e mártires missionários, explicam feitos históricos da conver¬ 
são, mostram associações auxiliares das missões e revelam com deta¬ 
lhe missões da índia, Ceilão, Indochina, China, Japão, Oceania, 
Marrocos e América. 

Palácio da Cidade de Barcelona. Este edifício consta de porão, rés- 
-do-chão e primeiro andar. No porão há uma instalação do porto fran¬ 
co de Barcelona, com o projecto do mesmo e diversas vistas do porto 
actual. No rés-do-chão encontra-se uma instalação relativa aos servi¬ 
ços cia Câmara Municipal de Barcelona. No primeiro andar há uma 
sala dedicada à origem da cidade de Barcelona e outra destinada à 
apresentação da evolução da mesma através dos tempos, com dese¬ 
nhos e gravuras. Noutras salas apresenta-se a história da imprensa e, 
de um modo particular, da imprensa em Barcelona. 

O Palácio do Estado Espanhol contém as aportações dos diferentes 


74 





Centros Ministeriais e dependências oficiais. Estão representados, 
entre outros, a Cidade Universitária, Ministério do Trabalho e 
Provisão, Direcção de Montes, Serviço Hidrológico e Florestal, 
Direcção-Geral de Obras Publicas, Instituto Nacional de Previsão, 
Escola Superior de Minas, Minas de Almaden, Fábrica da Moeda e 
Estampilha, Ensaio do Cultivo do Tabaco, Marinha, Farmácia 
Militar, Laboratório Central, Intendência, Sanidade Militar, Instituto 
de Higiene, Artilharia, Fábricas de Granada e Múrcia, Fábrica 
Nacional de Múrcia, Pirotécnica Militar de Sevilha, Fábrica de 
Armas de Oviedo, Fábrica Nacional de Toledo e Estabelecimentos 
Industriais de Engenheiros. 

Palácio das Diputaciones. Este palácio é destinado a conter as dife¬ 
rentes aportações das Diputaciones Espanholas por meio de gráficos, 
planos e maquetas, e um conjunto de serviços mais importantes que 
têm encomendados. 

Casa da Imprensa. Com todas as comodidades da época para que os 
jornalistas possam cumprir o seu papel. 



O Palácio da Imprensa era o quartel-general dos jornalistas que cobriam o acontecimento. 
Servia também de hotel, dispondo de quartos e restantes comodidades. 


Os países presentes na exposição seguem as regras gerais do jogo da 
exposição e acrescentam-lhe a da particularidade. Alguns países 
destacam-se no conjunto pela imagem que impõem à sua presença. 
Ciente do seu papel, o cônsul de Portugal em Barcelona relata para o 
Ministério do Comércio e Turismo português as prestações de países 
terceiros, seleccionando os produtos industriais: 


75 










“Os Estados Unidos da América ocupam uma extensão de doze mil 
metros quadrados. (...) As aportações deste pais lêm como nota 
característica a perfeição e a máxima modernização. Podem citar-se 
em primeiro lugar os automóveis e camiões escolhidos, tanto uns 
como outros não só entre os modelos e tipos principalmente reco¬ 
mendados pela economia mas também os mais luxuosos e de maior 
rendimento.” 

Notabilíssima também a aportação das industrias eléctricas com as 
suas aplicações práticas, relacionadas com a iluminação, a radiotele- 
grafia, o aquecimento, a tracção, a regularização do tráfico, etc., e 
lambém os adiantamentos realizados na fabricação de máquinas de 
escrever, de calcular, produtos e artigos de borracha, válvulas, cabos, 
etc., etc. 

Inglaterra. Grande numero de reputados e modernos fabricantes con¬ 
correm à Exposição Internacional de Barcelona. Famosa é a solidez e 
excelência da fabricação inglesa, sendo os produtos que a Inglaterra 
exibe uma nova prova desta verdade. Caracterizam a secção britâni¬ 
ca principalmente pela maquinaria, utensílios e ferramentas de aço, 
motocicletas, gramofones, artigos de borracha, alimentos patentea¬ 
dos, etc. A secção inglesa ocupa uma superfície de cinco mil metros 
quadrados. 

Holanda. Na secção de Holanda reuniu-se um grande numero de 
expositores seleccionados. (...) Resulta a aportação colectiva dos por¬ 
tos de Amsterdão e Roterdão, junto com as principais companhias cie 
navegação e dos estaleiros dos mencionados portos. Isto responde à 
necessidade que sente a Holanda de dar a conhecer as facilidades 
que tem para estabelecer relações com a colónias holandesas e 
intensificar o intercâmbio comercial, que tantos benefícios pode tra¬ 
zer tanto à Holanda como a Espanha. 

Japão. Ao organizar esta secção, a Associação Japonesa de 
Exposições teve em conta as condições especiais do Japão para atrair 
os visitantes, pelo que se respira uma verdadeira atmosfera japonesa 
típica ao entrar na referida secção. 

Defronte da entrada vêem-se as portas do Templo de Nara e, ao des¬ 
cer, à esquerda, encontramo-nos na formosa sala Coloong Tea, servi¬ 
da por verdadeiras japonesas, vestindo o típico traje nacional. Nesta 
secção há uma esplêndida exposição de obras de arte japonesa, anti¬ 
gas e modernas, trazidas por diferentes regiões do Japão. Em trinta e 
seis stands expõem-se centenas de amostras de diferentes mercado¬ 
rias japonesas, representando os vários distritos do império nipónico 
entre os quais se salientam: Iocoama com bordados e quimonos; 


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Tóquio com marfins lavrados e bronzes; Nagóia com porcelanas; 
Shizuoka com objectos de charão; Quiolo com bordados em seda e 
cloisonné ; Osaka com bronzes; Kobe com bronzes e cestarias; Kaga 
com porcelanas; Tokaoka com chapéus-de-sol e leques; e Nara com 
objectos diversos. 

Afora o indicado também se encontram na secção japonesa objectos 
de arte chinesa de Cantão, Xangai e Tietsin, tais como xailes, tape¬ 
tes, bordados de sedas, porcelanas, etc. 

Países Orientais. Estes países estão representados dentro de um só 
local denominado Pavilhão Oriental, em cujo recinto homens e 
mulheres ataviados com os típicos trajes dos seus respectivos países 
apresentam e oferecem amostras das suas artes e industrias. No 
numero destes países encontram-se: índia, Birmânia, Ceilão, Hong- 
-Kong, Malta, Palestina, Egipto, Pérsia, Turquia, Afeganistão, etc. 
Jugoslávia. Na exposição internacional de Barcelona a Jugoslávia 
tem, a mais do que o seu próprio palácio, diversos stands no Palácio 
Afonso XIII e obras de arte no Palácio de Arte Moderna. 
A Jugoslávia com o seu palácio simboliza um dos seus principais 
produtos de exportação, dando uma ideia da sua força económica, 
expondo excelentes madeiras, produtos agrícolas, curiosidades etno¬ 
gráficas, minerais, forças hidráulicas, comunicações, turismo e vᬠ
rios ramos da economia nacional. 

A Suíça expõe nos seguintes palácios: indústrias têxteis, comunica¬ 
ções e transportes, agricultura e Vitória Eugênia. Constam das suas 
exposições esplêndida relojoaria, máquinas e aparelhos diversos, 
máquinas têxteis, géneros de seda artificial e bordados, automóveis e 
camiões, produtos alimentícios, produtos químicos, pianos, acessó¬ 
rios têxteis, etc., havendo uma representação e magnífica manifesta¬ 
ção dos diversos ramos da indústria suíça. 

A Suécia trouxe à exposição internacional de Barcelona amostras das 
sua principais indústrias, tais como a de madeira, pasta de madeira 
da qual é a principal exportadora da Europa, minerais, máquinas 
diversas, ferramentas, desnatadoras e material para leitarias, mate¬ 
rial agrícola, fósforos e outros diversos artigos. 

0 pavilhão da Roménia, que está num dos pontos mais altos da expo¬ 
sição, é constituído por uma sala de vastas dimensões e construído 
inteiramenle em madeira. A Roménia apresenta diversas manifesta¬ 
ções das suas indústrias, comércio, agricultura, assuntos mineiros, 
sondas de petróleo, artes domésticas, artes aplicadas, arte religiosa, 
monumentos históricos, material agrícola, arte moderna, teatro, 
música, desportos, etc. 


7a 



A Noruega, embora não possa preencher grandes espaços como o 
fazem outros grandes países industriais, apresenta no entanto bastan¬ 
te do que representam as suas relações comerciais com a Espanha. 
(...) Mostra as diferentes formas de pesca, preparação e embalagem 
do bacalhau para exportação, diversas conservas, óleo medicinal, 
industria papelaria e celulose, cimento, objectos para desportos, e 
industrias metalúrgicas. 

A Itália construiu um famoso palácio cujo edifício tem uma estrutura 
clássica inspirada na arquitectura romana. Ali se apresentam diver¬ 
sas amostras de arte italiana em cerâmicas magníficas, mosaicos, 
mármores, mobílias de arte, alabastros, damascos, porcelanas, etc. 

A Hungria oferece uma variadíssima manifestação das obras caracte¬ 
rísticas húngaras das artes aplicadas e de produtos de manufactura 
popular e doméstica. Numa primeira sala admiram-se porcelanas, 
trabalhos de cerâmica, bordados, trabalhos de coiro, objectos de 
prata, plásticas em miniatura, etc. Numa segunda sala chama pode¬ 
rosamente a atenção dos visitantes os trajes típicos e os bordados à 
mão, as cerâmicas e os objectos artísticos. Numa terceira sala apre¬ 
senta o referente a trabalhos e instrução comercial e artística, tais 
como mobílias, trabalhos têxteis, tapetes, peles, pratas, objectos de 
cristal, jóias, etc. 

A França traz à Exposição Internacional de Barcelona diversos pro¬ 
dutos da sua riqueza agrícola, pastas alimentícias de todas as clas¬ 
ses, indústrias açucareiras, bolachas e chocolates, frutas em 
compota e marmeladas, conservas alimentícias e cervejaria. As 
principais casas de moda de Paris apresentam toda a classe de con¬ 
fecções, manequins, chapéus, meias, rendas, bordados, mobílias 
antigas e modernas, lâmpadas, tecidos para decoração, jóias, porce¬ 
lanas, etc. A indústria do automóvel apresenta uma extensa colecção 
de automóveis, camiões e autocarros. 

A Finlândia tem a sua exposição no Palácio Afonso XIII e apresenta 
diversas mostras da sua indústria, principalmente do ramo da madei¬ 
ra, da qual tem um grande movimento comercial. 

A Dinamarca tem pavilhão próprio onde expõe uma magnífica colec¬ 
ção de quadros modernos, tais como paisagens encantadoras e lindas 
marinhas da Dinamarca, bem como mobílias típicas do país. Também 
tem uma secção no Palácio Vitória Eugênia, na qual expõe máquinas 
agrícolas, tais como batedoras e prensas de pastos, máquinas frigorí¬ 
ficas; modelos de barcos a vapores, artes decorativas, porcelanas, 
cristais artísticos, cerâmica e conservas, etc. 

Os industriais da Checoslováquia há tempos que têm montadas em 


79 



Vista geral da Exposição. 

O olhar perde-se no panorama. 



Espanha instalações de fábricas de cerveja, de açúcar, destilarias 
bem como fábricas de electricidade. E esta nma razão a mais para 
que a Checoslováquia prestasse o seu concurso à Exposição 
Internacional de Barcelona, onde expõe no Palácio Meridional, 
apresentando cristais de Boémia, pedras semipreciosas, porcelanas, 
ferro esmaltado, mobílias, etc. 

Sabido é que a Bélgica, apesar da reduzida extensão do seu territó¬ 
rio, ocupa um dos primeiros lugares no que se refere a indústria e 
comércio, devido à sua magnífica organização e à energia dos seus 
habitantes, cuja actividade reina em todos os campos da indústria. 
Na exposição de Barcelona tem palácio próprio, no qual expõe amos¬ 
tras das suas principais indústrias tais como ferro fundido, aço em 
bruto, zinco em bruto, vidros e os seus famosos cristais, tecidos de 
algodão e lã, seda artificial, artigos de papel e papelão, metais e pro¬ 
dutos de metal, pedras preciosas e semipreciosas, maquinaria, mate¬ 
rial eléctrico, máquinas agrícolas, ferramentas, cimentos e rendas de 
Bruxelas e de Bruges, mobílias, calçado, etc. Estão expostos uma 
grande variedade de automóveis, autocarros, camiões de diversos 
tipos, motocicletas, bicicletas, pneumáticos, câmaras-de-ar e tudo o 
que diz respeito a este género de locomoção e transporte. 

0 concurso da Áustria à Exposição de Barcelona tem por objecto 
demonstrar que este país produz e fabrica muitos artigos destinados 











ao comércio espanhol, tais como máquinas e as suas diversas peças, 
automóveis, papel e artigos de papel, artigos de coiro, artigos de 
luxo, artigos de modas, ourivesaria, artigos de prata, cristais, porce¬ 
lanas, mobílias, etc. 

A indústria e o comércio alemães pretendem mostrar perante os cír¬ 
culos industriais e comerciais espanhóis a actual situação de desen¬ 
volvimento da economia alemã. O material exposto na Exposição 
Internacional de Barcelona dá uma ideia aproximada da laboriosida- 
de alemã. No Palácio da Arte Têxtil expõe uma grande colecção de 
máquinas para fabricar tecidos, meias, rendas, artigos de malha em 
seda natural e artificial, etc. Em outros diferentes palácios expõe 
máquinas agrícolas, máquina para fazer calçado, aparelhos de elec¬ 
tricidade, anilinas, brinquedos diversos, magníficos objectos de 
prata, porcelanas da Saxónia e muitos e variados produtos da desen- 
volvidíssima indústria alemã.» 



81 



BIBLIOGRAFIA 


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— Crónica de la Técnica , Plaza e Janes Editores, Barcelona, 1989. 

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Arquivo Histórico Diplomático Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

— Diário de Notícias, vários 1929, ano 65. 


82